terça-feira, 13 de outubro de 2026

CONGOS DE COMBATE– Siaba mais sobre o Ponto de Cultura e da memória potiguar

No Rio Grande do Norte, assim como em todo o nordeste brasileiro, há uma gama de manifestações folclóricas com muito significado para a composição da identidade cultural da região. Tanto que um dos maiores folcloristas do Brasil é o potiguar Camara Cascudo. Dentre varios coletivos culturais da cena artistica popular, um dos grupos de forte renome no estado é o Ponto de Cultura e Memória Congos de Combate, que há decadas vem desempenhando um papel fundamental na promoção de atividades relacionadas à memória, patrimônio e museologia social no município de São Gonçalo do Amarante, região metropolitana de Natal, mais especificamente na Comunidade de Santo Antônio do Potengi.

Em São Gonçalo, o grupo folclórico de Santo Antônio do Potengi "Congos de Combate" é remanescente dos antigos Congos de Saiote, que também pertencia ao município norte rio grandense. A relevância do coletivo folclorico se torna grandiosa, uma vez que o grupo atua na preservação e valorização da prática ancestral do folguedo Congo; uma manifestação cultural de origem africana que carrega profundas raízes históricas e sociais. Manifestação esta, que fora incorporada na nação brasileira desde o princípio da colonização. Ela em sua organização dramaturgica constitui-se em um bailado dramático com canto e música, que conta a história da Rainha Ginga e da batalha do Rei Henrique Cariongo, rei do Congo, para libertação dos escravos naquele país.  

O Coletivo "Congos de Combate", responsável pela manutenção dessa tradição, realiza pesquisas, registros e ações de preservação que contribuem diretamente para a conservação e perpetuação dessa prática cultural única, garantindo que as futuras gerações possam conhecer e valorizar suas heranças culturais. 

O Auto dramático, por sua vez mostra por meio de mitos, danças, ritmos e oralidades, a beleza da cultura popular e suas influências na formação do povo brasileiro. Este entrecho dramático é precedido das mais variadas cantigas: dobrados guerreiros, benditos de igreja, louvações aos santos padroeiros locais: São Benedito, Nossa Senhora do Rosário, Nossa Senhora Aparecida, São Gonçalo do Amarante e, ainda, de outras canções das mais diversas procedências, algumas denotando visível influência africana, pela presença de vocábulos de origem negra.

Desse modo, entender a importancia de grupos como o "Ponto de Cultura Congos de Combate", éconstante  compreender de forma direta, a  atuação no que se refere a preservação e fomento da práticas culturais e históricas que fazem parte da formação da identidade do povo brasileiro, pois, enfatiza-se uma maior valorização da diversidade étnica e na luta contra o esquecimento de tradições essenciais para nossa memória individual e coletiva. Além de manter viva, a memória e solidez da cultura potiguar.


Fontes:

https://pontosdeculturapotiguar.org.br/pontos-de-cultura/congos-de-combate/

https://tribunadonorte.com.br/viver/registro-da-resistencia/#google_vignette

http://www.farofacritica.com.br/revista/conteudo/589/congos-de-combate-na-qualidade-de-vida-dos-jovens-brincantes-de-sao-goncalo-do-amarante

LIBERDADE LIBERDADE: Uma peça teatral que enfrentou o regime militar e o golpe de 1964.

Capa do livro com o texto do espetáculo Liberdade, Liberdade. Civilização Brasileira, 1965

Com sua estreia em 21 de abril de 1965 no Rio de Janeiro, a historica e emblematica peça do teatro brasileiro, que tinha o forte teor de protesto e resistencia ao regime ditatorial. O texto de Millor Fernandes e Flavio rangel, se tornou um marco dramaturgico para quem estuda a historia do teatro no Brasil.

A peça que estreou em 1965, depois de muitos problemas com a censura, concebia em sua dramaturgia, uma colagem de textos e canções sobre o tema “liberdade”, havia alí uma clara alusão ao autoritarismo que se instalara no Brasil depois do golpe de 1964. Este famoso golpe de Estado, se configurou numa ruptura político-militar no Brasil que depôs o presidente democraticamente eleito João Goulart  entre 31 de março e 1 de abril de 1964. Na ocasião, esse evento encerrou a Quarta República e deu início a uma ditadura militar que durou 21 anos, até 1985. Isso então ameaçou a democracia, colocando o país sob o medo e crivo dos militares. Sem contar que dentres suas consequências, o regime suspendeu direitos constitucionais, impôs a censura, cassou mandatos políticos, cerceou sindicatos e praticou perseguições, prisões, torturas e assassinatos de opositores. 

Tereza Rachel, Oscar Castro Neves, Nara Leão, Oduvaldo Vianna Filho (Vianinha) e Paulo Autran na leitura da peça "liberdade, liberdade", 1965 » direção de Flávio Rangel e tradução de Millôr Fernandes e Flávio. "É com opinião que se chega à liberdade" - Grupo opinião, teatro de Arena.

Liberdade, Liberdade tinha em seu elenco, nomes como Paulo Autran, Teresa Rachel e Claudio Mamberti. Os autores da peça, no entanto procuraram dar conta de diversos contextos de falta de liberdade, elencando autores que viveram na antiguidade, no contexto das revoluções liberais e no século XX, sob diversos regimes políticos.

Paulo Autran e Tereza Rachel em Liberdade, liberdade, peça de Flávio Rangel e Millôr Fernandes, 1965.

Mas afinal, o que é a liberdade?

Por Millôr Fernandes

Apesar de tudo o que já se disse e de tudo o que dissemos sobre a liberdade, muitos dos senhores ainda estão naturalmente convencidos que a liberdade não existe, que é uma figura mitológica criada pela pura imaginação do homem. Mas eu lhes garanto que a liberdade existe. Não só existe, como é feita de concreto e cobre e tem cem metros de altura. A liberdade foi doada aos americanos pelos franceses em 1866 porque naquela época os franceses estavam cheios de liberdades e os americanos não tinham nenhuma. Recebendo a liberdade dos franceses, os americanos a colocaram na ilha de Liberty Island, na entrada do porto de Nova York. Esta é a verdade indiscutível. Até agora a liberdade não penetrou no território americano. Quando Bernard Shaw esteve nos Estados Unidos foi convidado a visitar a liberdade, mas recusou-se afirmando que seu gosto pela ironia não ia tão longe. Aquelas coisas pontudas colocadas na cabeça da liberdade ninguém sabe o que sejam. Parecem previsão de defesa antiaérea. Coroa de louros certamente não é. Antigamente era costume coroar-se heróis e deuses com coroas de louros. Mas quando a liberdade foi doada aos Estados Unidos, nós os brasileiros já tínhamos desmoralizado o louro, usando-o para dar gosto no feijão.

A confecção da monumental efígie custou à França trezentos mil dólares. Quando a liberdade chegou aos Estados Unidos, foi-lhe feito um pedestal que, sendo americano, custou muito mais do que o principal: quatrocentos e cinqüenta mil dólares. Assim, a liberdade põe em cheque a afirmativa de alguns amigos nossos, que dizem de boca cheia e frase importada, que o “Preço da Liberdade é a Eterna Vigilância”. Não é. Como acabamos de demonstrar, o preço da liberdade é de setecentos e cinqüenta mil dólares. Isso há quase um século atrás. Porque atualmente o Fundo Monetário Internacional calcula o preço da nossa liberdade em três portos e dezessete jazidas de minerais estratégicos.


Liberdade, liberdade. Millôr Fernandes e Flávio Rangel, LP&M, 1997.

O HOMEM VITRUVIANO: O desenho de Leonardo da Vinci que idealizava um corpo matemáticamente sólido.

Sabemos que o Desenho é uma forma de expressar ideias e esboçar projetos. A linguagem visual transmite ideias, sentimentos e informações de forma rápida e direta., utilizando em sua composição, elemento como: linha, ponto, forma, proporção, luz e sombra. Na história, muitos desenhos se consolidaram como um marco revolucionário, é o caso de "O Homem Vitruviano", criado pelo genial artista da renascença Leonardo da Vince, que tinha um jogo de regras matematicas por trás de sua concepção. 

Desenhado por Leonardo da Vinci, produzido em 1490, durante o contexto do Renascimento cultural e científico, a obra mundialmente renomada e conhecida como Homem Vitruviano ou Homem de Vitrúvio, representa o ideal clássico de beleza, equilíbrio, harmonia das formas e perfeição das proporções. Atualmente, a obra além de ser uma das mais famosas, tambem se detaca por ser uma das mais reproduzidas no mundo. 

Imagem: BBC. 
Essas proporções perfeitas são a base de duas premissas centrais ao diagrama: O corpo do homem está proporcionado de acordo com a geometria e a matemática. Essas proporções, aplicadas à arquitetura, produzirão edifícios perfeitos. E tudo isso, ao que parece, Da Vinci fez para si mesmo.

O desenho mostra uma figura masculina nua sobreposta em duas posições: No quadrado, representa-se a Terra, o plano físico, a materialidade e o mundo terrestre. Nesta posição, os braços abertos mostram que a altura do homem é igual à sua envergadura. Já no círculo, está a representação do paraíso, remetendo ao plano espiritual e a conexão com o divino. Deixando claro, um conceito de dualidade, que se Refere à presença de duas realidades ou substâncias fundamentais e irredutíveis (como o corpo e a alma, ou a matéria e o espírito, amplamente exploradas por pensadores como René Descartes).

É importante analisar tambem Os Centros Geométricos da obra, uma vez que Leonardo resolve um enigma geométrico da antiguidadede forma brilhante.  O umbigo funciona como o centro imóvel do círculo, enquanto a região pélvica/genitália marca o centro exato do quadrado. Assim como na escultura clássica, perpetuada na Grécia antiga, o desenho de Da Vinci faz uso do "Cânone das Proporções", alinha perfeitamente aos princípios da Proporção àurea, justamente por detalhar matematicamente o corpo humano ideal: A cabeça, por exemplo, corresponde exatamente a um oitavo (1/8) da altura total, fazendo diretamente a referencia de corpo proporcionalmente ideal. Para Vitruvio, essas proporções encontravam-se no corpo humano e isso era, provavelmente o que Da Vinci explorava ao desenhar o homem vitruviano. 

Mão tocando o lado do quadrado e os pés na base do circulo e do quadrado.
Imagem /BBC.

Para o gênio renascentista, no qual era fascinado pela anatomia humana, as proporções harmonicas iam além do corpo e tambem da arquitetura. Certa vez esreveu o mestre: "A proporção não se encontra em numeros e medidas, mas tambem nos sons, nas paisagens, nos tempos e nos lugares". Ou seja: Da Vinci mostra que sua genialidade não está a toa perdurando séculos, ele não buscou idealizar a perfeição apenas, eles propôs matematicamente a pensar a vida como um fenomeno além do conhecimento técnico e cientifico. Ele revolucionou todo um pensamento filosófico de uma era.


sexta-feira, 9 de outubro de 2026

CONTATO IMPROVISAÇÃO: Uma linguagem que faz a Dança explorar possibilidades do corpo e os princípios físicos da cena.

 

Técnica de dança desenvolvida pelo norte americano Steve Paxton, que explora a improvisação guiada por um ponto de contato físico, estimulando a fluidez e a espontaneidade do movimento.

A arte pós moderna entra em cena como uma misto de possibilidades criativas, no campo das artes cênicas, o teatro e a dança buscam uma conexão entre suas ações e propostas expressivas. Uma delas se baseia nos pilares do Contato Improvisação. Esse modus operante se constitui numa forma de dança desenvolvida em 1972 em Nova Iorque por um grupo de pessoas pesquisadores artísticos. Essa linguagem artística da dança consiste na exploração de movimentos corporais improvisados através de princípios como o toque, relação com a gravidade, queda, a troca de peso e consciência corporal.

Segundo as informações disponíveis nas mais variadas páginas digitais, a primeira performance de Contato Improvisação foi feita em Junho de 1972 na John Weber Gallery (Nova Iorque) a partir de uma residência artística financiada por uma bolsa recebida por Steve Paxton, que havia convidado cerca de 15 estudantes e colegas para essa pesquisa coletiva.


Pra ser mais preciso o Contato Improvisação é um diálogo corporal de duas ou mais pessoas por meio do vocabulário sensorial composto de toque, peso e pressão. O que rege essa pratica é justamente a aceitação do outro e de si na construção de uma dança única no presente. Os movimentos que surgem da técnica lidam com a inércia, o momento, o desequilíbrio e o inesperado, podendo ir de um alto nível aeróbico à uma quietude física.

A surgimento da prática teve inúmeras influências de diversas pessoas e das pesquisas da década de 60. Especialmente influentes foi o pensamento oriental em geral, artes marciais (capoeira, judô, aikidô), terapias "somáticas" do séc. 20 e "movimentos naturais", dança livre de pés descalços; e práticas utilizando centros de gravidade, rolamentos, quedas e demais mecanismos de sustentação do corpo humano que exploravam mobilidade, relaxamento, movimento autêntico, não-intencionalidade, improvisação entre outros.

Desse modo, é notório perceber que, os princípios que guiam as práticas do contato e improvisação são a consciência corporal, expressão livre do movimento, técnicas de relaxamento, fluxo de energia e os princípios da física que reverberam nos corpos dos bailarino-atores. Assim concluímos que esse estilo de dança não se baseia necessariamente numa narrativa pré-determinada, uma vez que os corpos respondem em tempo real a impulsos, desequilíbrios, quedas e rolagens, dando assim maiores possibilidades de uma arte espontânea.

quinta-feira, 8 de outubro de 2026

O REALISMO DE GUSTAVE COURBET

 

Gustave Courbet - The Desperate Man, 1843.

Ao estudarmos o Realismo na trajetoria das artes plasticas, não tem como passar despercebido pela contribuição grandiosa de Gustave Courbet. Artista que constantemente viveu desafiando críticas severas na França, pois era modelo indiscutível de uma nova geração de pintores. Mas quem foi esse artista que revolucionou todo um estilo de retratar a realidade em telas de pintura? Qual a significancia de Courbet para a historia da arte ocidental? Podemos começar pelo fato de saber quem é esse ícone da arte.

Gustave Courbet, foi um pintor francês e era líder do movimento realista. Aos 14 anos de idade, o jovem iniciou suas aulas de pintura, foi aí que o mesmo demontsrou um certo talento para o oficio. Por um bom tempo frequentou o Collège Royal e a faculdade de belas artes de Besançon, dirigindo-se no ano de 1841 à Paris, no intuito de estudar direito. 

Gustave Courbet - Mulheres tomando banho, 1853.
Esta pintura foi o escândalo do Salão de 1853. Os espectadores esperavam que as mulheres nuas fossem deusas mitológicas ou figuras alegóricas. Ao mesmo tempo, Courbet parece retratar uma mulher nua comum. Ele também viola a cânone das proporções do nu feminino — os nus acadêmicos eram esbeltos, com pele de porcelana. Um crítico reclamou que Courbet havia retratado uma mulher de 45 anos prestes a se lavar pela primeira vez na esperança de aliviar suas varizes. Outra a chamou de rinoceronte. Uma lição: nus femininas não devem ser realistas!

Moças às margens do Sena - Courbet -1856

Esta pintura também foi considerada escandalosa no Salão. O título era ofensivo porque estas não são "damas", mas sim moças da classe trabalhadora de vida fácil. Mulheres dormindo, parcialmente nuas, sugerem uma disponibilidade sexual passiva — uma espécie de abandono sexual na grama. Essas mulheres não são belas, mas a feiura personifica o Realismo, uma das experiências mais comuns da vida. Além disso, essas mulheres parecem estar em poses espontâneas — uma composição típica de um realista.

Mulheres peneirando trigo - 1854-1855

Com pouco tempo, Courbet desistiu da carreira de advocacia, passando a se dedicar completamente à pintura. Conta-se que ele evitava  visitar estúdios de pintores acadêmicos, pois preferia passar mais  tempo no Louvre, estudando trabalhos ja conceituados, aprendendo cada vez mais da arte da pintura, ao copiar telas de Caravaggio, Velazquez e Rubens.

Ao viajar para à Holanda, Courbet teve contato  com as obras de Rembrandt e Hals, isso ajudou a convernce-lo de que o "pintor deveria retratar apenas a vida ao seu redor". Com esse proposito, daria-se inicio a um novo meio de ver a arte como mecanismo de revelar a realidade. Courbet admirava Gericault e Delacroix, dois mestres do romantismo e seus contemporâneos.

Encontro ou Bonjour Monsieur Courbet, 1854.

Gustave Courbet  é geralmente considerado o pai do Realismo Europeu. Ele próprio utilizou o termo "Realismo" para definir seus objetivos e defender uma causa realista. Quando suas pinturas foram rejeitadas para uma exposição internacional em Paris, em 1855, ele criou seu próprio espaço expositivo em frente ao pavilhão oficial, chamando-o de "Pavilhão do Realismo". Seu credo pode ser resumido em sua declaração: “Mostre-me um anjo e eu o pintarei”; ou seja, os realistas são específicos apenas no visíveis, no reais. 

Os Quebradores de Pedra. Gustave Coubert. 1849 
Este tema é inédito na história da arte; além disso, esta grande pintura monumentaliza os trabalhadores comuns, retratando-os quase em tamanho natural. Eles vestem roupas esfarrapadas e tamancos surrados. Seus rostos são obscuros, o que elimina a possibilidade de sentimentalismo e sugere a desumanização desse tipo de trabalho. São camponeses anônimos sem-terra em uma estrada árida e monótona. Além disso, a implicação é que o menino está destinado a uma vida de trabalho árduo e pobre, como seu colega de trabalho muito mais velho. 

Tipicamente, ele pintava paisagens e cenas de gênero retratando a classe trabalhadora. Como explica Gardner, "Pessoas comuns, do tipo que Courbet nos mostra em sua obra, eram consideradas pelo público restrito para a representação artística e eram associadas, na mente da classe média, à perigosidade e classe trabalhadora recém-definida, que encontravam defensores eloquentes em homens como Marx, Engels, Proudhon, Balzac, Flaubert, Zola e Dickens". Esse realismo era radical; Essa reflexão da idealização foi perturbadora, levando os críticos a afirmar que ele pintava "feiura deliberada". Sobretudo, uma realidade que transpassava a poética e utópica visão romantica do mundo.


Fontes:
https://arteref.com/artes-tradicionais/courbet-o-artista-lider-do-movimento-realista/

https://www-bluffton-edu.translate.goog/courses/humanities/art/19c/real/courbet.html?_x_tr_sl=en&_x_tr_tl=pt&_x_tr_hl=pt&_x_tr_pto=sge

 

quarta-feira, 7 de outubro de 2026

O FILME CENTENARIO "O GAROTO" MOSTRA A VERDADEIRA ESSENCIA DE Charles Chaplin.

Com pouco mais de cem anos, "O Garoto", primeiro longa-metragem de Charles Chaplin, deixa claro que no cinema desse diretor o que vem primeiro é o personagem –Carlitos. O tipo mais marcante da história do cinema, com seu corpo coberto de paradoxos. Já nos trajes convivem o gentleman e o vagabundo, o nobre e o pária, reverberando em seu comportamento como se ali se concentrassem os equívocos todos da humanidade. 


A tais e tantos equívocos Carlitos responde com um altivo –e não raro sarcástico– espírito de resistência e algum sentimentalismo. Permanece indiferente ao juízo da sociedade. É vagabundo e orgulhoso.

O certo é que tudo está em seu corpo, o que explica por que Chaplin passou momentos de tanta angústia quando começou a primeira exibição pública de "O Garoto". Eram as cenas iniciais. Solenes, como ele mesmo definiu. Frouxas, digo eu.

Uma jovem mãe, sem dinheiro ou opções, deixa o seu bebê no interior de um automóvel. O carro é roubado por um par de malfeitores. Ao se depararem com a criança que chora no banco de trás, a tiram de lá e a põem ao lado de uma lata de lixo.


Toda essa parte expositiva sugeria um melodrama -o gênero era ainda mais central no cinema há cem anos do que é hoje. E onde estava Carlitos nisso tudo? Estava nos bastidores, suando frio, esperando pela reação da plateia. Logo, porém, ele surge. E basta o seu andar para suscitar os primeiros risos.

Carlitos apanha o bebê e o leva à sua pobre casa. Não sabe o que fazer com uma criança que chora. Improvisa, transforma um bule em mamadeira. Corta o assento de uma cadeira, fazendo um círculo onde possa sentar a criança para que ela faça suas necessidades.

A plateia veio abaixo. Ali estava Carlitos. Estaria ao longo do filme. Desafiando a lei e a ordem com altivez para guardar o menino das garras do poder "bem-intencionado", sempre disposto a fechar a criança num orfanato ou pior.

Até esse momento, o espectador já está ao par das outras virtudes de Carlitos –o corpo tão ágil quanto o espírito, a combatividade, mas também certa alegria de existir, mesmo quando o mundo inteiro é adverso a ele.

Do começo ao fim, Chaplin se manterá fiel ao seu personagem. É sempre ele o centro das atenções da câmera, é em função dele que tudo mais existe e se move. O que é certo, porque o humor vem todo dele. É o inverso de um Buster Keaton, que dava vida a todos os elementos ao seu redor e só então inseria o seu tipo –ele existia então em função do mundo ao redor. Chaplin faz o mundo existir em função dele.

Ou quase todo o mundo, porque agora estamos em um longa e, afinal, existe uma mãe na história. Ela ressurgirá, claro, agora transformada em grande -e rica- estrela do teatro.

Entramos na segunda parte da história, onde Chaplin mistura habilmente o melodrama (é sempre no final que devemos nos comover, não no começo –lei do gênero), sem evitar o que hoje podemos ver como seu ponto fraco, o sentimentalismo à comédia.

E entramos também na história pessoal de Chaplin, cujo filho do casamento com Mildred Harris morreu três dias após o nascimento, segundo alguns. O comediante sentia o casamento como equívoco que deu lugar a um uma crise criativa sem precedentes na sua vida.

Um dia, para desanuviar, foi a um espetáculo de "music hall" em que topou com um menino de quatro anos que o encantou pelo talento e beleza. Era Jackie Coogan, que quase de imediato inspirou nele a ideia central do filme, a da criança que o vagabundo adota relutantemente no início, mas que amará com intensidade a seguir.

Jackie Coogan tinha a vantagem adicional de ser filho do ator Jack Coogan, amigo de Chaplin que esteve livre na maior parte do tempo das filmagens, podendo dessa maneira assessorar o filho nos momentos em que ele empacava (nas cenas mais simples, segundo o diretor). De passagem, Coogan, o pai, fez uma ponta como o batedor de carteira, na cena em que Carlitos e o menino dormem em um albergue.

Talvez não se deva esquecer também da mãe, Edna Purviance. Parceira de Chaplin em mais de 30 filmes, o caso amoroso entre eles havia terminado há anos. De certa forma, Mildred Harris entrou na história para curar as dores de amor do cineasta. Mas Purviance e Chaplin continuaram parceiros na tela por um bom tempo.

Momento especial para Chaplin, o lançamento de "O Garoto", em 16 de janeiro de 1921. Para chegar ali suou bastante. Foram nove meses de filmagem e uma montanha de negativo gasto, na proporção de 53 rolos usados para cada um usado na montagem. No meio, o divórcio.

Já então ungido como o único gênio a praticar essa arte ínfima, o cinema, Chaplin comprovou no longa a genialidade que já tinha demonstrado nos filmes de um ou dois rolos. Talvez hoje ninguém mais acredite, como no passado, que Charlie Chaplin era o único gênio de uma arte ínfima, o cinema. Mas de seu gênio ninguém, até hoje, pode duvidar.


Texto original disponivel em:

https://diariodonordeste.verdesmares.com.br/verso/centenario-o-garoto-prova-que-carlitos-e-estrela-de-chaplin-1.3033703

terça-feira, 6 de outubro de 2026

EDGAR DEGAS: O artista que pincelava o processo do balé além do glamour dos palcos.

Quando estudamos historia da arte, que chegamos a ver o trabalho de Edgar Degas, logo nos vem em mente a seguinte pergunta: “Por que Degas gostava tanto de pintar bailarinas?” Sem duvidas esse é um questionamento muito frequente acerca desse artista. Desse modo, iremos entender um pouco desse fascinio por essa temática.

É bem verdade que esse tema era um dos preferidos do artista francês, um dos grandes nomes do impressionismo. Degas retratou bailarinas em diversas situações: dançando, ensaiando, descansando… E tudo isso com muita delicadeza e atenção aos detalhes. Mas o que será que ele via de tão especial nas bailarinas?
Podemos propor a ideia de que Degas vislumbrava qualidades como leveza e movimentação dos corpos, uma vez que ele era fascinado por capturar o corpo em suas mais variadas possibilidades movimento, sendo que o balé é cheio de poses, giros e equilíbrio, perfeitos para o estudo anatômico do artista. Por esse motivo, percebemos que há inumeras possibilidades de Degas se inspirar para produzir suas telas.
O artista ficou famoso por escolher temas de pintura de gênero como retratar dançarinas, uma dessas obras de Edgar Degas é A Estrela – Em Pointe:

A Estrela – Em Pointe: Possui características da pintura realista combinada com algumas técnicas da pintura impressionista. Degas utiliza as pinceladas leves misturando a tinta com uma pátina para criar um efeito realista na pele da dançarina, além de usar a suavização da luz natural impressionista, ao não usar uma cor só para a iluminação.

Caracteriza-se o Estudo do corpo humano como metodo criativo de Degas. Pois ele adorava desenhar o corpo em posições difíceis. As bailarinas serviam quase como “modelos de estudo” para ele testar ângulos e composições.

O pintor faz parte da corrente artística impressionista, embora suas obras tenham um estilo mais realista. Edgar Degas veio de uma família rica por isso teve condições financeiras de estudar arte, podendo inclusive fazer o gran tur, que era uma espécie de viagens aos lugares onde havia obras dos chamados grandes mestres.

A Classe de Dança

Degas focava basntante no Realismo e tambem nos Bastidores: Em vez de focar apenas no glamour do palco, Degas preferia retratar os momentos reais e não idealizados, como ensaios, repouso, fadiga e ajustes de figurino, o esforço, o cansaço, a preparação. Ele gostava de mostrar a verdade por trás da beleza idealizada. O processo era mais interessante que o resultado.

Edgar Degas priorizou seu próprio estilo, ao contrário de outros impressionistas que pintavam ao ar livre, ele preferia o interior dos teatros. Essa Inovação visual permitia que estas cenas, fossem usados enquadramentos inusitados, inspirados pela "fotografia " da época, cortando bordas e guiando o olhar do espectador. Geralmente à espaços interiores. Contudo, isso não impediu o bom Sucesso Comercial, uma vez que as obras do artistia impressionista tinham excelente aceitação e alta demanda no mercado de arte da época.
Ballet at the Paris Opera. Edgar Degas, 1877.
Degas ainda propõe diálogo, impressiona em suas reflexões simbólicas e visuais e acima de tudo, expõe ao expectador, que por tras do glamour, a arte requer processos continuos e nem tão faceis em seus bastidores. Isso talvez, torne a arte de Edgar Degas, mais que impressionista, quem sabe até realista demais para o estilo.

segunda-feira, 5 de outubro de 2026

ARTE EFEMERA - Esculturas de Gelo no Castelo de Matsumoto em Nagano

A arte pode se mostrar de diversas formas, uma delas é conhecida como efemera, ou seja, aquela manifestação artística criada para durar um curto período de tempo, valorizando a transitoriedade, o momento presente e a experiência em vez de buscar a eternidade ou em se conceber como um objeto duradouro. Anualmente, um belo festival de esculturas de gelo é realizado  na área do Castelo de Matsumoto , na província de Nagano, no Japão, atraindo um grande público para vislumbrar o evento. O festival conta com a presença de escultores não somente do Japão, mas de outros países.

Os artistas, que participam de uma competição, trazem suas ferramentas e começam a esculpir no final da tarde do dia anterior ao evento, momento o qual é possível apreciar o processo de trabalho dos escultores, que se esforçam durante toda a noite, com as artes finalizadas na manhã do dia seguinte. Esse é um exemplo claro de arte efemera. Em outra oportunidade, trarei mais exemplos desse tipo de linguagem artistica.


Creditos e materia original disponivel em:
https://portalmie.com/atualidade/2023/11/nagano-festival-de-esculturas-de-gelo-no-castelo-de-matsumoto/