domingo, 11 de novembro de 2012

DUAS VISÕES SOBRE A MESMA LARANJA


 
 por Murilo Jorge  
Laranja Mecânica carrega dois finais geniais dentro da mesma história e nós podemos escolher qual nos  agrada mais.
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Laranja Mecânica é um clássico do cinema e da literatura. Lançado na Europa em 1962 e no Brasil em 1971, o livro escrito por Anthony Burgess causou grande furor na opinião dos críticos. Falava de um jovem delinquente chamado Alex que liderava seusdruggies, uma gangue que furtava, estuprava e fazia uso de todo tipo de violênciahorrorshow. Nem é preciso falar que a temática abordada pela obra foi um golpe forte, ácido, irônico e cínico à sociedade inglesa e ao mundo da época.
Tudo no livro era diferente, incluindo o vocabulário nadsat criado por Burgess. Era uma mescla de elementos linguísticos do subúrbio inglês com a língua russa. A genialidade do enredo, das personagens e do contexto histórico, atraiu a atenção de outro gênio, mas das telas.
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Stanley Kubrick, que carregava em seu histórico da época filmes como Lolita e o premiado 2001: Uma Odisseia no Espaço adaptou o livro para o cinema em 1971. A atitude podia não ser bem vista por muitas pessoas que preferem os livros ao invés das produções cinematográficas por estes possuírem mais riqueza e fidelidade à história. Felizmente, isso não se aplica à Laranja Mecânica.
Kubrick fez um excelente trabalho com base no livro homônimo. Deu vida aos personagens e contou com a espetacular ajuda de Malcolm McDowell, que transformou-se em figura insubstituível do vilão/herói Alex DeLarge. Porém, um ponto da originalidade e fidelidade à obra literária foi violado pelo diretor.
O enredo seguia fiel até seu final. Depois de passar pelo pioneiro tratamento Ludovico, que prometia uma nova socialização ao criminoso, Alex se vê “curado socialmente”.
Exposto a filmes violentos, cenas chocantes e violência de modo geral, ele é condicionado a repelir toda manifestação vinda daquele comportamento, ficando vulnerável e passando mal toda vez que era submetido a uma pressão de cunho violento.
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Teve sua mente lavada.
Depois de adquirir aversão aos atos que cometia e até a 9ª Sinfonia de Beethoven, da qual tanto gostava, o protagonista se vê impotente ao ser aprisionado por um senhor que teve a mulher molestada por ele e seus druggies antes de Alex ser preso. A cena do estupro, uma das cenas mais chocantes do cinema por ser representada com tanta naturalidade e veracidade, é lembrada até hoje.
Buscando vingança, o senhor tortura Alex mentalmente, que desesperado, tenta suicídio e falha. Quando acorda no hospital vê que sobreviveu e agora é tido como herói.
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O Ministro do Interior, um dos que era favorável ao tratamento usado em Alex, se desculpa e oferece trabalho ao protagonista, na tentativa de apagar a má imagem por apoiar o experimento.
Até este momento, as histórias eram iguais.
No livro, o jovem sai do hospital e tem tempo para rever algumas coisas que fez durante sua pequena saga. Volta a ser líder de outro grupo, mas aparentemente perdeu sua essência. Está mais sensível, mais maduro e mais crescido, mas isso será percebido com a leitura atenta ao final do livro.
Alguns pontos são ressaltados por Burgess e, trocando em miúdos, há um arrependimento do autor que é refletido no protagonista. Chega-se a conclusão, de que foi apenas uma fase ruim, aliada à pré-adolescência, e que Alex cresceu.
É então que aparece o lado ainda mais crítico de Kubrick. No filme, não há a saída do hospital, esse regresso e esta conclusão. Alex, deitado na cama, é alimentado na boca pelo Ministro. O ato é acompanhado de perto pela mídia, que registra tudo. O ar debochado da personagem faz sentido.
Ao fundo do quarto, mesmo com uma multidão de fotógrafos e repórteres, ele se vê fazendo sexo com uma mulher, em meio a uma espécie de reunião de cavaleiros. Uma orgia ao som da 9ª Sinfonia de Beethoven, que até então lhe causava transtornos e náuseas.
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A genialidade de Laranja Mecânica está aí. Os dois finais, tanto do livro quanto o do filme, são coerentes. Mas muitos, como eu, preferem o filme por ser mais interpretativo. O ponto de vista é mais claro. É muito difícil mudar a essência de uma pessoa. No caso, Kubrick quis passar que Alex era uma pessoa violenta em todos os sentidos por natureza. A nossa essência é, então, incorrigível.
O fato de se tentar corrigir também é botado à prova pelo diretor. Se devemos ser como somos, qualquer ato que tomarmos pode ser considerado justificável. Outro ponto levantado por ele: Alex atua como pessoa boa para ser socializado novamente. Essa atitude de reprimir sua essência lhe rende frutos e status, como o que lhe foi oferecido, quando na verdade o protagonista possuiu o caráter deturpado.
Então, até que ponto todos nós atuamos? Não será comum que todos escondam suas essências para se adequar socialmente? Nós somos pessoas realmente boas? Somos totalmente verdadeiros? Se houvesse a possibilidade de expor o que pensamos e queremos, isso seria feito por todos e seria aceito?
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O livro já carrega a visão positiva de que todo mal pode ser corrigido, independente do que seja feito. Foi uma fase, que estranhamente, passou para o protagonista.
De ambas as interpretações, a de Kubrick faz mais sentido por não ter compromisso em ser politicamente correta e é mais sólida. Apesar disso, não há a menor importância em de discutir qual é melhor.
Devemos apenas concluir que só uma obra como Laranja Mecânica poderia ter dois finais tão distintos escondidos em uma mesma história.
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murillojorge
Artigo da autoria de Murillo Jorge.
Jornalista e apaixonado por música desde sempre. Flerta com cinema e cultura em geral. Ouve muito mais música do que é recomendado..
Saiba como fazer parte da obvious.

Talentos que a mídia nunca vai valorizar - PETELECO DA VIOLA "FALA SÉRIO".

A principio, quando se olha para o artista, sua imagem logo reflete o que a sua obra venha a ser. Quando se ouve o nome "Peteleco da viola" nosso preconceito sobre o sujeito vem a tona por mera ignorância, imaginamos no entanto que isso não é nome de artista...

Pois bem, esse músico é um pedreiro; o que logo de cara rompe a visão estereotipada do homem insensível, ignorante, analfabeto, "pau mandado"que trata mulheres com indelicadeza e por isso convenciona-se num profissional vitima de inúmeras piadas e "cantadas" babacas.

Esse músico amazonense quebra esse paradigma e revela uma das letras musicais mais coerentes que particularmente tenha ouvido. O bom da arte é que assemelha-se ao HIV, não escolhe classe social   pra se manifestar. Essa canção critica toda a sujeira proporcionada pela corja politica do Brasil, vale a pena refletir essa ideia. Pena que a nossa televisão fajuta e manipuladora jamais irá divulgar. 

Confira:

sexta-feira, 9 de novembro de 2012

Redes sociais revelando medíocres.

por Fábio Fernandes

"Nenhum homem é hipócrita nos seus prazeres". (Albert Camus)



Faço de Camus minhas palavras. É triste ver um monte de pessoas que usam as redes sociais pra se auto afirmarem enquanto sujeitos. Ainda a pouco comentei um vídeo no qual uma mãe (negra e pobre) bate no filho alcoolizado e o que estava escrito como titulo da postagem era "eu ri " e se ainda não bastasse, vinha acompanhado do famoso "KKKKKKKK" na boa creio q isso não passa de linguagem de retardado, obviamente muitos usuários da rede social compartilharam o vídeo reproduzindo outros "KKKKKKKK's". 
Bem, esse não é o problema. E então qual é o problema nisso? Percebe-se que as algumas dessas pessoas que riram da miséria dessa família são as mesmas que colocaram em seus pseudônimos "Guarani Kayowá" há semanas atrás, com o modismo da vez. 
No entanto, acredito que pessoas que não têm o menor senso critico do que venha a ser humor só querem mesmo sentirem-se acima dos outros (socialmente), porque numa causa estes indivíduos são humanistas e solidários para com os seus iguais e em outras oportunidades são toscos e forçam ser pessoas que sorriem da vida e nunca são despreocupadas com os problemas cotidianos? Acredito que não passam de hipócritas, vazios e seres altamente necessários de autoafirmação, na boa, isso chega a ser ridículo.

Outro paradoxo, é alguém pagar de certinho e na realidade ser apenas mais um na multidão, oportunista e sem a menor noção do que venha a ser coerente para com o próximo. Semanas atrás vi num desses blogs (assim como esse - risos) um cara sensacionalista que prega uma imagem de  certinho (faz-me rir) postar um vídeo no qual dois travestis (pobres) brigavam, o pior foi ele encontrar como título da matéria "Humor: Briga de travestis". Na boa, o pior não foi eu ver tamanha babaquice, o que entendi por mais duvidoso foi me questionar o porque de eu estar dando ibope a tamanha futilidade.

Enfim, até quando nos utilizamos das mídias para passarmos a impressão de certinhos? Eu por exemplo, pode parecer que este texto tem o intuito de me elevar ao titulo de "certinho", ah na boa, detesto politicamente correto, mas isso não implica usar uma ferramenta como o facebook pra mostrar minha provável raça ariana acima dos meus iguais. Isso pode até responder o porque somos um pais constantemente emergente.

O cauto azul (Lid Galvão)


O meu desejo não é sonho real;
Não é como aqueles que sentam no banco da praça,

E apreciam-se numa mutualidade.
E cultivam-se sem qualquer medo medonho.



Vi-te uma vez só, longe dos olhos.
Estreito-me as veias e pouco sangue corria.
Falava-me de frente para o espelho;
Eu, de frente para todas as coisas.



Ouvi mais que duas palavras.
Despertei ainda que sonolenta.
Porém, de nada serviu-me o nada.



Sentei-me depois em apreensão.
Absorveu-me poucas impressões;
Eu, a tua sombra calada,
A tua esfera perfeita.



Lembrei-te de dizer o que pensara.
Então, pensara que não podia ser.
Lembrou-me de vestir algo azul;
E a mim, o cauto azul celeste.

Disponivel em:
http://www.recantodasletras.com.br/poesias/3942031

Vale a pena ter em sua discoteca : PHOLHAS


Hoje indico um grupo musical que marcou sem dúvida minha história de vida, tudo bem que não sou contemporâneo dos caras, porém a arte através da musicalidade dessa banda continua consistente nos dias atuais, creio que pelo fato de além de ser um grupo formado numa época em que se tinha boas referencias musicais, possuia de fato, um público mais qualificado e com maior critério para ouvir a boa música.
Com esse grupo aprendi que as letras "PH" tinham o mesmo valor de "F", ainda hoje, quando quero sair da rotina e tô afim de ouvir os caras eu olho nos arquivos e digo - "Homi" eu acho que vou é curtir POLHAS. 
Essa banda sem dúvida merece um espacinho em sua discoteca:


PHOLAS
A banda foi criada em 1969 com a seguinte formação: Helio Santisteban (teclado), Paulo Fernandes (bateria), Oswaldo Malagutti (baixo) e Wagner "Bitão" Benatti (guitarra), com os quatro se revezando nos vocais. Começaram fazendo covers de bandas dos EUA e Inglaterra e passaram a compor também em inglês.
Seu primeiro LP, "Dead Faces", lançado em 1972 pela RCA, continha apenas canções em inglês. Um compacto simples extraído desse álbum, com a música "My Mistake", chegou ao primeiro lugar das paradas, vendendo 400 mil cópias em apenas três meses. Em seguida, outras canções foram lançadas em compactos, como "She Made Me Cry", "I Never Did Before" e "Forever", todas atingindo vendagem superior a 300 mil cópias. Em 1975, o álbum de estréia foi lançado no mercado hispânico com o título de "Hojas", dando ao grupo mais um Disco de Ouro.
Em 1977 o grupo mudou de orientação, lançando o LP "O Som das Discotheques", com covers dos principais sucessos do gênero, e chegando a 150 mil cópias vendidas.
Logo em seguida, Hélio Santisteban resolveu seguir carreira solo e em seu lugar entrou Marinho Testoni, ex-Casa das Máquinas. Isso levou a outra mudança no grupo, que lançou um disco de rock progressivo, e pela primeira vez com letras em português. O disco vendeu bem menos que os anteriores, mas tornou-se cult para um segmento de público.
Em 1978, foi Oswaldo Malagutti quem deixou a banda, sendo substituído pelo baixista João Alberto, também ex-"Casa das Máquinas". Malagutti criou com Santisteban o Estúdio MOSH (acrônimo de seus nomes) e até hoje trabalha com produção e masterização deCDs e DVDs musicais.
Em 1980 Hélio Santisteban retornou ao grupo, que retomou a tradição de cantar e compor em inglês, lançando então o LP "Memories". Poucos meses depois, com a saída de Marinho, o Pholhas chegou à seguinte formação: Bitão (guitarra), Paulo Fernandes (bateria), Hélio Santisteban (teclados) e João Alberto (baixo).
No final de 2007 Hélio Santisteban deixa definitivamente a banda, a partir de então Bitão, Paulinho e João Alberto resolvem não ter mais um tecladista fixo e sim um tecladista especialmente convidado para cada apresentação. Essa formula deu tanto certo que virou um atrativo a mais dos shows.
Ainda na estrada depois de 42 anos, a banda PHOLHAS continua apresentando espetáculos em todo o Brasil e exterior, com recriações de sucessos do rock inglês e norte-americano, especialmente de Bee Gees, Creedence Clearwater Revival, Elvis Presley,Rolling Stones e Beatles.

Essa é minha preferida: She made me cry: 



Fonte:
http://pt.wikipedia.org/wiki/Pholhas

Teatro cego tem atores com deficiência visual no palco e platéia no escuro

Inspirado em um projeto da Argentina, o espetáculo conta com cinco atores, três deles cegos, que circulam pelos corredores do teatro, interagindo com o público e provocando diversas sensações na plateia.

sábado, 3 de novembro de 2012

O Facebook e o modismo "Guarani-Kaiowá".

Por Fábio Fernandes 

  Ô Gurú, Qual o modismo da vez?

- Colocar o nome "Guarani-Kaiowá" no perfil do Facebook.



 Ah, na boa, entendo que a intenção do termo "Guarai-Kaiowá" no perfil do facebook é uma homenagem que se presta a nossos irmãos indígenas que estão sofrendo... e bla bla bla. Tudo bem que esse gesto solidário é importante, mas temos que entender que uma hora isso passa a ser modismo, e quando chega-se nesse estágio a gente percebe que ja não é somente um gesto de humanidade e afins.

É nesse momento que algumas pessoas se apropriam da ocasião para se autoafirmarem, muitas vezes não estão nem ai para a questão politica que oprime os nossos indígenas, mas o que importa no momento é estar por dentro da "vibe" - é chique dizer que é solidário.

Muitas dessas pessoas são as que votam em políticos opressores e se apropriam dessas redes sociais para passar a imagem de pessoa do bem. Não coloquei "Guarai-Kaiowá" no  perfil do facebook, isso quer dizer que sou uma pessoa do mal ou menos solidária? acredito que o verdadeiro mestre não precisa dizer que é mestre, ele simplesmente é.

Embora esse modismo seja algo que não me vejo compactuar, percebo claramente que o movimento surtiu efeito, pois consequentemente a "vibe" se torna uma febre. O intuito desse texto não é de forma alguma desvalorizar o ato solidário, mas questionar até onde estamos sendo realmente solidários ou seguindo uma tendencia do momento. Movimento parecido ocorreu um ano atrás, quando a "vibe" era colocar como foto de perfil a imagem de um ícone que marcou nossa infância, esta atitude a principio seria para homenagear as crianças que passam fome no mundo, porém me pergunto se isso matou a fome desses pequenos?

Do jeito que a carruagem está indo, creio que daqui há alguns dias o modismo da vez será : contar o percurso que faz a cada momento do dia. Enfim, Ja que nesse Facebook virou moda estar mostrando unhas com esmalte,batons,vestidos, se batizando de "Guarani-Kaiowá" e estar constantemente dizendo tudo que vai fazer...estou pensando seriamente em mostrar o penteado pêniano do dia.

sexta-feira, 2 de novembro de 2012

Grinaldas no dia de finados = Ovos de chocolate na páscoa.

Por: Fábio Fernandes

Hoje no calendário do país se configura dia de finados, aquele  que consiste numa homenagem simbólica a nossos queridos companheiros que (jás) se foram pra outra dimensão, pro céu, pro inferno, purgatório ou outro lugar que somente a fé de alguém é capaz de crer. 
Na minha limitada visão, vejo esse dia como pretexto para mais um feriado no país, sem dúvida algo que é de referencia e origem cristã. Sem falar que o mercado também intervem nesse dia dos mortos, uma vez que grinaldas são vendidas a esmo e em grande proporção. Vejo essas auréolas de flores similares à ovos de chocolate na páscoa e máscaras e farinha de mingau em período de carnaval. 
Ainda no meu singelo raciocínio  não vejo esse dia de finados como alguma prova de amor ao companheiro-irmão que morreu, consigo também ver que é de inteira importância valorizar as pessoas enquanto estão do nosso lado, seja ela parentes próximos ou não, seja ela rica ou pobre e assim por diante.
 Posso, no entanto, estar parecendo ser o "Do contra" da história, pois creio que quando não seguimos os padrões sócio-religiosos em nosso país (laico) somos tidos como rebeldes, descompromissados, fúteis, alem de não sermos nada éticos e transparecermos imorais perante a sociedade (burguesa) conservadora, pois bem se é pra ser assim; que seja. 
Na boa caros amigos, deixemos de acreditar que o dia de finados vai fazer a memória do defunto mais viva - isso é até louvável.  Espero que ao invés de visitarmos cemitérios por modismo cristão, venhamos realmente a nos importar com as pessoas ainda em vida.

Não é porque boicoto o dia de finados que não homenageio (com arte) quem acredita nessa simbologia e atribui importância considerável a esse acontecimento. LID GALVÃO expressa em sua poesia algo semelhante a esse momento de separação da vida para a morte.




Velório



...Choravam cúpulas de vidro,
Debruçadas, por vezes,
Em meio a olhares compreensivos.
E por vezes, deixavam escapar uma só lágrima
Que jurei já ter se esgotado antes.
Olhei velas e um corpo imóvel,
Enquanto alguém falara suas últimas palavras.
O que arrancara mais comoção,
Ainda mais que o possível.
Não pensei na morte como aquele alívio,
E sim, como a verdadeira solidão.
Lembrei-me de abraçar um ser sem combate,
E nada dizer, a não ser...
Dando um pouco de calor de minhas mãos,
As suas palmas frias e covardes.
Imaginei a mim mesma,
Deitada em sono profundo;
Sem cor e com algo como um véu
Impedindo que moscas me sentissem antes do tempo.
Confesso, perturbei a mim mesma.
Não desejo ir!
Não espero que deixe-me ir...
Tão incompreendida... E tão só!

quarta-feira, 31 de outubro de 2012

Jorge (BEM) Amado



O ano de 2012 assinala o centenário de dois dos mais consagrados escritores da literatura brasileira: Jorge Amado e Nelson Rodrigues. Em tempo, acrescentaria ainda Álvaro Lins, hoje infelizmente quase esquecido. Este, contudo, era um crítico literário e a tradição letrada nunca concede a essa categoria, a crítica, o valor atribuído ao criador literário no sentido estrito do termo (explicitando: o romancista, o poeta e o contista). O fato, de resto, deveria importar para que a cultura acadêmica tivesse a humildade de admitir a subordinação da crítica e da teoria à criação literária compreendida no sentido estrito que acabo de especificar. O assunto é de enorme relevância, mas não posso infelizmente considerá-lo sem enredar-me em digressões impertinentes. 


Num país cujo público letrado é tão ralo, Jorge Amado e Nelson Rodrigues distinguem-se antes de tudo pelo extraordinário sucesso editorial, notadamente o primeiro. Jorge Amado alcançou o raro privilégio de viver de literatura bem antes do advento da televisão e da expansão da universidade brasileira. Enquanto a primeira contraiu ou desviou o público potencial da literatura, a segunda pouco concorreu para ampliá-lo. Com isso ou contra isso, Jorge Amado foi o mais afortunado dentre os representantes de uma corrente ficcional que conciliou de forma inusitada na nossa tradição literária a qualidade estética e o sucesso editorial. O leitor sabe que me refiro à corrente do romance social nordestino, cuja irrupção, no início dos anos de 1930, afetou a orientação da literatura experimental da década precedente e pouco mais tarde deslocou para segundo plano o romance de cunho psicológico e metafísico de Cornélio Pena, Octavio de Faria, Lúcio Cardoso e alguns outros. A cristalização e ápice desta última corrente é constituída pela obra de Clarice Lispector. 



Já que o mercado é a única ideologia que nos sobra no presente, não é à toa que inicio este artigo ressaltando o singular sucesso editorial de Jorge Amado. É certo que, a julgar pelas estatísticas correntes, Paulo Coelho o superou como expressão desconcertante da literatura globalizada. Ainda assim, Jorge Amado detém trunfos estranhos ao sucesso colossal do rival. Além da amplitude da sua obra, acumulada dentro de um ritmo de progressão regular que se estendeu do início dos anos 1930 a 1994, data de publicação do seu último romance, teve grande parte da sua obra adaptada para o cinema, a televisão, o teatro e o rádio. Não bastasse tanto, Jorge Amado foi dos raros escritores brasileiros inventores de uma mitologia nacional. Ele traduziu em termos estritamente ficcionais o Brasil mítico inventado por Gilberto Freyre no âmbito das ciências sociais. O Brasil da sua ficção, sobretudo a Bahia, é uma reinvenção sua de tal modo impregnada no imaginário nacional que com ele, assim como com Gilberto Freyre e alguns poucos, aprendemos a ver e sentir o país real transfigurado por sua imaginação lírica, romântica, porejante de sensualidade e idealização imantada não no que somos, mas no que desejamos, não na tradição realista que ele sempre subverteu, mas numa forma de idealização romântica que nos representa como certamente gostaríamos de ser. 



Diante do que acima esbocei, é previsível que a magnitude da data, o centenário de Jorge Amado, pouco encoraje apreciações pautadas pela isenção crítica, pela avaliação indiferente ao espírito de celebração. Lembrando ainda os soberanos interesses do mercado, a pressão é grande e espontânea o suficiente para que fiquemos apenas no batuque do samba exaltação, virtude de resto distintamente brasileira. Friso, portanto, que este artigo desdobra-se deliberadamente na contracorrente dessas manifestações previsíveis. Antes, porém, ressalto que Jorge Amado, como aliás qualquer autor de obra e biografia complexas, pode ser abordado em consonância com inúmeras perspectivas e escalas de valor. O que cabe ao crítico é explicitar seu ângulo de apreciação argumentando de forma coerente com o que se propõe a explorar. Antes de explicitar o meu, cuido de reconhecer alguns méritos inegáveis do autor e da obra. 



Um dos grandes méritos de Jorge Amado, extensivo aos melhores representantes do romance nordestino dos anos 1930, foi conferir expressão palatável para o público leitor mais amplo conquistas estéticas propostas e limitadamente experimentadas pela linha de ponta do modernismo difundido no curso da década anterior. Refiro-me mais precisamente à incorporação do povo na literatura, à introdução bem sucedida da linguagem coloquial no discurso literário, à representação ficcional da cultura do povo. Estes são postulados pelo modernismo a partir de sua guinada nacionalista, isto é, a partir de 1924. Mas essa tradução de postulados estéticos e ideológicos do modernismo em clave regionalista não se fez sem alguns problemas que foram bastante discutidos pela crítica. Mário de Andrade, por exemplo, enfrenta essa questão no texto da sua célebre conferência de 1942 quando, a pretexto de celebrar os 20 anos do modernismo, procede a um balanço do movimento em tom isento de complacência mesclando crítica objetiva e apreciação impiedosa do papel que individualmente desempenhou no processo cultural. 



Considerando o lugar central ocupado na literatura brasileira pela corrente do romance nordestino, Mário de Andrade louva as conquistas compreendidas pelos postulados que acima indiquei. Não o faz, entretanto, sem na outra dobra criticar nesses romancistas (à parte Graciliano Ramos, ressalva minha) o excesso de inspiração e improviso. Noutras palavras, a ausência de rigor construtivo que sempre exigiu do artista. O fato de empenhar-se em produzir uma obra comprometida com ideais humanistas e politicamente progressistas, apreensíveis na sincera identificação com o povo iletrado e oprimido, não isenta o artista do domínio da técnica e da linguagem artística, dos meios culturais necessários à criação literária. 
Ora, sabemos que essa crítica afeta diretamente a obra de Jorge Amado, pois nele sempre prevaleceu, de par com seu notável talento para a fabulação e a transfiguração lírica da realidade, o desleixo relativo ao estilo e à linguagem. Por isso, mesmo a crítica mais favorável e simpática à sua obra (destacaria aqui Álvaro Lins, Antonio Candido, Alfredo Bosi e Luiz Costa Lima) critica sua imaginação sensualista e primitiva, sua representação sentimental e idealizada do povo expressa na solução mágica dos conflitos e na caracterização psicológica das suas personagens demasiado esquemática. Parece-me de fato muito pobre a caracterização psicológica das suas personagens. À diferença de um Graciliano Ramos, que articula com maestria ação e caracterização subjetiva, ambiente e personagem, quando não um termo através do outro, Jorge Amado tende sempre para a caricatura quando formaliza literariamente antes tipos sociais (como o personagem de extração popular investido de virtudes idealizadas ou o pequeno-burguês, contra quem investe seu espírito satírico) do que representações realistas convincentes. 



Aparentemente, o romancista nunca deu muita importância a essas restrições. Pelo menos é o que se deduz de uma frase conhecida com que à vontade se definiu: “Sou apenas um baiano romântico e sensual”. Alfredo Bosi não deixa por menos e assim comenta a frase: “Definição justa, pois resume o caráter de um romancista voltado para os marginais, os pescadores e os marinheiros de sua terra que lhe interessam enquanto exemplos de atitudes ´vitais`: românticas e sensuais...” (Ver História concisa da literatura brasileira, 34ª edição, pp. 405-6). Bosi vai adiante frisando que essa poética espontânea passou ao largo do realismo crítico contentando-se em fornecer ao leitor “...pieguice e volúpia, em vez de paixão, estereótipos em vez de trato orgânico dos conflitos sociais, pitoresco em vez de captação estética do meio, tipos ´folclóricos` em vez de pessoas, descuido formal a pretexto de oralidade... Além do uso às vezes imotivado do calão: o que é, na cabeça do intelectual burguês, a imagem do eros do povo. O populismo literário deu uma mistura de equívocos, e o maior deles será por certo o de passar por arte revolucionária. No caso de Jorge Amado, porém, bastou a passagem do tempo para desfazer o engano” (Id., p. 406). 



Cito e, além de citar, subscrevo o juízo crítico. Mais longe ainda que Bosi foi Walnice Nogueira Galvão, outra grande representante da crítica acadêmica. É dela a crítica mais devastadora que conheço sobre a obra de Jorge Amado. No auge da ditadura militar brasileira e do sucesso editorial do ficcionista baiano, 1973, ela escreveu um ensaio crítico a propósito do lançamento de Tereza Batista Cansada de Guerra (Ver “Amado: respeitoso, respeitável”, in Saco de Gatos). 
Walnice abre seu ensaio esboçando uma equação complexa, mas essencial à análise da relação entre o escritor, o Estado e o mercado na tradição literária brasileira. Depois de louvar a coragem cívica com que Jorge Amado e Érico Veríssimo ousavam pronunciar-se contra a censura dentro dos limites de expressão impostos pela ditadura, contrapõe estes romancistas, significativamente independentes do Estado, já que dependentes do gosto público na esfera do mercado de livros, aos intelectuais dependentes do Estado, isto é, aqueles que são empregados públicos por não lograrem viver profissionalmente do exercício da literatura. Esboçadas essas linhas (remeto o leitor interessado ao ensaio de Silviano Santiago que replica e desdobra as consequências do teorema de Walnice, como escreve ele, no livroVale quanto pesa), Walnice explora em termos críticos a relação entre a dependência do mercado e a qualidade da obra examinando em tom devastador o romance Tereza Batista Cansada de Guerra.



Analisando aspectos fundamentais do romance com corte preciso e polêmico, a ensaísta demonstra nesta obra particular as insuficiências formais e ideológicas da obra de Jorge Amado. Argumentando contra o caráter populista da sua ficção, sempre marcada pela idealização dos oprimidos, que são antes de tudo figuras da marginalidade baiana, ou do lumpemproletariado, fato que parece no mínimo irônico num escritor que foi militante comunista durante grande parte de sua vida, Walnice contrasta Tereza Batista com Moll Flanders, protagonista do romance homônimo de Daniel Defoe. O paralelo resulta constrangedor para nosso fabulista baiano. Bastaria lembrar que Tereza Batista é uma prostituta dotada de grande consciência política, portadora das melhores virtudes populares. Isso se aplica a ela quanto a todos os heróis marginais de Jorge Amado, o que contradiz liminarmente o conceito de lumpemproletariado. 



Citando a própria Walnice, “Já Tereza não resvala, única personagem sempre virtuosa do romance. Se puxamos à memória os pobres de Brecht e de Buñuel, pensamos que Jorge Amado está brincando uma brincadeira sem graça; tudo se passa em seu romance como se a ética da miséria fosse outra e pobre virtuoso não morresse de fome; a idealização da miséria nada fica a dever a Gilberto Freyre. A tessitura ficcional interrompe-se a todo instante para dar ocasião a enunciados abstratos e polêmicos sobre a miséria; concretizada em Tereza, jamais aparece. Ela é, de fato, um ser moral, como alguma duquesa riquíssima de Balzac; no quadro frio e cruel das altas esferas francesas do século XIX, onde todos se entredevoram, de vez em quando há uma personagem assim. E Balzac aponta a condição, necessária mas não suficiente, pois só como exceção se dá, em que pode surgir um ser moral: em cima de um monte de dinheiro” (op. cit., p. 16). 
Além dessa idealização da miséria, Walnice também ressalta um dispositivo formal, o discurso indireto livre, empregado por Jorge Amado para resolver em termos ambíguos, que variam da representação realista à mítica ou mágica, conflitos sociais evidenciadores da sua ideologia populista. Trocando novamente em miúdos: a heroína do povo é sempre virtuosa e vencedora, as divindades africanas sempre intervêm em defesa dos heróis populares. A isso se soma o discurso saturado de baixo calão, quando não da pura e simples pornografia e da perversão sexual. Walnice alinha exemplos convincentes da sua crítica relativa a esses aspectos do romance, também presentes noutras obras de Jorge Amado. 



Seria simplista, como alguns supõem, considerar a crítica acima como evidência da polaridade entre rejeição da crítica acadêmica da obra de Jorge Amado versus aceitação unânime do público. Há sem dúvida alguns críticos acadêmicos que reconhecem no romancista baiano um dos mais importantes da literatura brasileira. Por outro lado, seria um engano traduzir seu extraordinário sucesso de público como evidência de unanimidade. O que me parece todavia previsível é o clima de irrestrita celebração assinalando a passagem do centenário desse extraordinário inventor de um Brasil mitológico. E o fato é que a mitologia é avidamente consumida e amada não apenas pelos brasileiros carentes de uma representação mítica e romântica da nossa cultura cujos traços predominantes são a sensualidade, o excesso desatado de culpa e governo, a idealização das nossas misérias seculares e o sincretismo mágico mesclando em tom confraternizador o arcaico e o moderno, os grupos e classes que não são o que são, mas por certo são o que o típico leitor amadiano (brasileiro ou estrangeiro ávido de exotismo cultural) gostaria que fossem. 


Disponivel em: