quarta-feira, 25 de abril de 2012

CROQUIS: DESENHAR EM LIBERDADE

publicado em artes e ideias por

Por detrás do design há todo um conjunto de ferramentas de expressão criativa, entre as quais nenhuma se iguala ao velho díptico lápis-papel. Poderíamos falar de arquitectura ou até de cartografia, mas falaremos de moda, do desenho e da liberdade do traço, apoiados nos croquis de Tiago Loureiro, coleccionador de predicados.

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© Croquis de Tiago Loureiro.

Desenhar sobre um papel é, à primeira vista, um processo livre, sem constrangimentos nem barreiras para além do limite do talento e da própria imaginação. Mas, na verdade, não é assim. Quem desenha sabe que será julgado e avaliado por outros, e daí que procure a exactidão, uma técnica que domine bem, de modo a que o seu processo criativo resulte numa representação perfeita. Este desenho de representação é desde logo limitado, nas suas múltiplas formas. O croqui é algo diferente. Materializa aquilo que o criador processa, para que ele próprio possa ordenar e relacionar-se com a sua obra, de forma simples e espontânea.

A origem do termo croqui remonta ao início do século XIX: vem do francês croquer, que significa simplesmente esboçar, e pode aplicar-se às mais diversas áreas, da arquitectura à moda. Croqui não tem outro significado que o do desenho rápido, do bosquejo, do esquisso, não exigindo, portanto, grande precisão ou refinamento gráfico. Não representa uma ideia acabada e formatada pelo colectivo - é uma experiência individual, de descoberta e experimentação, como a pintura ou a escultura. Nele está contido o raciocínio e a emoção do indivíduo criador, moldados pelo processo criativo próprio, a caminho de um resultado inesperado.

Observando as imagens, o croqui é um desenho de linha pura, com eventuais texturas simples, mais representativas que realistas, colorido ou não. É uma forma de desenho mais livre, ainda que o seu propósito possa ser muito objectivo. Aproxima-se do desenho infantil e da sua liberdade de expressão única, sem pretender a exactidão dos traços ou um perfeito domínio da técnica. Distancia-se do resultado formal, mas compreende igualmente o registo do desenvolvimento do processo criativo e, envolvendo uma linguagem própria que varia de indivíduo para indivíduo, torna-se um acontecimento particular e dinâmico que permite ampliar a percepção da possibilidade e aí romper com os estereótipos presentes na memória. Ao criador traz o novo, o protótipo mutável, deixa espaço à sugestão de quem vê.

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© Croquis de Tiago Loureiro.

Nos croquis - por serem registos de ideias ou de emoções instantâneas - é evidente que é a estética e não tanto a técnica que se pronuncia, e isso é óbvio na moda. As figuras e as roupas permitem a ilusão do movimento e, com ele, uma representação dramática que imprime no desenho a sensação de quem cria, aquela que se pretende ao primeiro contacto e mais tarde, continuamente, com a peça criada.

A relação do croqui com a moda é muito especial. A guerra, como nenhum outro evento, traz o cosmopolitismo (falemos das conquistas de Alexandre Magno, do vasto Império Romano ou das Guerras Mundiais, e o efeito colateral é sempre o mesmo). Principalmente nos anos que se seguiram à II Guerra Mundial - durante a guerra ninguém produzia peças novas - o florescimento das casas de moda, muitas que hoje reconhecemos como as grandes, atraiu as atenções de compradores de todo o mundo aos grandes centros criativos. Paris era já a referência, e criadores como Balenciaga, Chanel ou Givenchy enviavam aos clientes croquis, acompanhados por pequenas amostras de tecido. Grandes compradores nos EUA, por exemplo, a milhares de quilómetros de Paris, e numa altura em que as comunicações e os transportes não eram o que hoje conhecemos, podiam assim conhecer as colecções e fazer as suas encomendas. Havia um certo encanto na espera, a curiosidade aguçada de quem aguarda pela correspondência.

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© Croquis de Tiago Loureiro.

Esses tempos passaram. O luxo foi democratizado. Agora enviam-se colecções inteiras para qualquer ponto do globo e são feitas captações exaustivas em fotografia e vídeo de cada peça, de cada coordenado. Diz-se no meio que são poucos, e cada vez menos, os criadores que incluem o croqui como passo primeiro do seu processo criativo. E desses, dificilmente o público verá os esboços. No entanto, para aqueles que começam, para aqueles que têm o talento e não estão ainda sob a pressão avassaladora de mudar tudo a cada estação, pelo menos para esses, este tipo de desenho é ainda o grande veículo de representação gráfica artística, deixando as novas tecnologias num segundo plano. O croqui trata da liberdade - questões como "qual o comando certo?" ou "como desenho isto?" não podem surgir aqui.

"O desenho é a honestidade da arte. Não há possibilidade de trapaça. Ou se é bom, ou se é mau.", dizia Dalí, apontando uma perspectiva estanque e directa que nos lembra que desenhar pode ser complicado, que desenhar bem não é de todo fácil e não é certamente para todos. Para o talentoso português Tiago Loureiro, finalista do curso de Design de Moda da Universidade da Beira Interior, blogger (vale a pena visitar StreetLights.pt), entre muitas outras coisas, que gentil e exclusivamente produziu belíssimos croquis para ilustrar este artigo, o desenho surge naturalmente como forma de expressão genuína. O croqui como apreensão fragmentária e transformativa da realidade, manifestação do génio criativo.

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© Croquis de Tiago Loureiro.

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© Croquis de Tiago Loureiro.

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© Croquis de Tiago Loureiro.

romero
Sobre o autor: alexandre romero, um cidadão do mundo. Classicista, escritor, fotógrafo, pintor experimental, o homem dos mil ofícios. Saiba como fazer parte da obvious.


Leia mais: http://obviousmag.org/archives/2012/04/croquis_desenhar_em_liberdade.html#ixzz1t4gD4eds

sexta-feira, 20 de abril de 2012

De graça, arte e cultura de valor incalculável em Londres

Londres ainda é uma das cidades mais caras da Europa - há menos de dez anos, por exemplo anos uma libra esterlina comprava R$ 5,50. Hoje, porém, com uma cotação bem mais favorável para os brasileiros de passagem (na faixa de R$ 2,60), os turistas gastam mais do que nunca na capital britânica. Mas uma série de atrações gratuitas ainda faz a alegria de quem ainda chega preocupado com o bolso, mas ansioso por diversão. Há poucos lugares no Velho Mundo com tantos passeios 0800.
O principal deles é o Museu Britânico, com 13 milhões de objetos das principais civilizações do passado e da atualidade. As principais relíquias são um pedaço do Parthenon grego e a Pedra de Roseta, a base de tudo que sabemos sobre os antigos egípcios e seus hieróglifos. Um dia não é suficiente para o passeio. Exposições especiais, porém, são pagas, mas o acervo permanente garante uma boa olhada por pelo menos três dias. Tudo a uma curta caminhada da estação de metrô de Tottenham Court Road.
Para quem curte mais arte do que história, as galerias Tate são a pedida: a Modern, que lida com trabalhos contemporâneos de primeira linha, fica perto da estação Southwark, enquanto a Britain, com obras desde o século 16, está nas imediações de Pimlico. Já a National Gallery conta com mais de 2.300 pinturas e além de exibir divernos nomes britânicos, conta com uma coleção invejável de mestres como Leonardo da Vinci e Caravaggio. Use a estação de Charing Cross.
Saindo da National Gallery, basta da alguns passos para chegar à principal praça londrina: a quase bicentenária Trafalgar Square. Ali há celebrações esportivas, protestos e, no fim do ano, uma enorme árvore de Natal doada pela Noruega — um presente de gratidão por conta da ação britânica para libertar o país dos nazistas. Outro marco popular da cidade é Piccadilly Circus — use a estação de mesmo nome para chegar. Só olhar as lojas, da National Geographic ao magazine do programa "Acredite se quiser", já vale o passeio.
Perto da estação Victoria, está um programa obrigatório — e gratuito — para quem vai à cidade. De maio a julho, a guarda britânica, que usa chapéus de pele de urso e roupa vermelha, promove a cerimônia da troca da guarda no Palácio de Buckingham, pontualmente às 11h30. No inverno europeu, o ritual acontece dia sim dia não. Para acompanhar essa tradição militar, acorde cedo e vá para a frente do portão principal.
Outro programa gratuito e popular em Londres são os parques. O principal é o Hyde Park, em que há desde a galeria de arte Serpentine ao peculiar Speaker's Corner — onde qualquer pode pegar um banquinho para defender ideias, como se estivesse no Parlamento. Várias estações de metrô ficam na região: Hyde Park Corner, Knightsbridge, Marble Arch e Lancaster Gate.
Por respirar cultura e entretenimento, Londres também tem atrações aleatórias, em qualquer canto da cidade. Lá os artistas de rua não dependem de semáforos na luz vermelha para se apresentar. Todos são licenciados e fazem testes antes de ganharem as ruas como palco. Essa diversão gratuita é quase sempre garantida nas principais estações de metrô. Londres já não soa tão cara assim...

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domingo, 15 de abril de 2012

Afinal, o que é TEATRALIDADE?

Vocês, artistas, que fazem teatro em grandes casas, sob a luz de sóis postiços, ante a platéia em silêncio, observem de vez em quando esse teatro que tem na rua o seu palco: cotidiano, multifacetário, inglório, mas tão vivido e terrestre, feito da vida em comum dos homens – esse teatro que tem na rua o seu palco. (...) Oxalá possam vocês, artistas maiores, imitadores exímios, não ficar nisso abaixo deles! Não se afastarem, por mais que se aperfeiçoem na arte, desse teatro que tem na rua o seu palco! (Brecht, 2000, p.235)


Estaria Brecht em sua colocação nos incitando a exercitarmos nosso olhar para o cotidiano imprimindo neste uma certa teatralidade?

Num primeiro momento cabe ressaltar que esta definição se faz cada vez mais importante nos dias atuais, pois trata de delimitar o que diferencia o teatro do cotidiano, dos outros gêneros e artes, e as distinções formais entre as práticas (apesar dessas especificidades não ocuparem fronteiras tão desenhadas que sejam definidas com facilidade). Porém, as indagações e desdobramentos sobre este conceito, nos levam sem dúvida a repensarmos e redefinirmos nossa prática e nosso olhar sobre o fazer teatral.

Entendendo o teatro como artefato de representação ou interpretação de si mesmo, uma de nossas jovens entrevistadas, distingui teatro da vida, mas consegue percebê-lo em seu cotidiano, dizendo que: “Qualquer representação é teatro. Se tu chegar e estiver representando alguma coisa que não é bem você, é teatro, até no dia-a-dia” (Natália)

Frente a estes cruzamentos, podemos então nos remeter a origem grega da palavra teatro, o theatron, que segundo Pavis (1999, p. 372) revela uma propriedade esquecida, porém fundamental, desta arte: é o local de onde o público olha uma ação que lhe é apresentada num outro lugar. Por sua vez o teatro possibilita um ponto de vista sobre um acontecimento, um olhar, um ângulo de visão. Este deslocamento provoca uma fricção da relação entre olhar e objeto olhado, que fissura aquilo que denominamos de real, abrindo a entrada para possibilidades de outros reconhecimentos deste mesmo real, através da construção de um novo olhar que estabelece: a teatralidade.

Já na fala de um dos nossos entrevistados a questão do ponto de vista fica bastante claro: “Acho que teatro não tem idade. Porque a maior parte do teatro é de acordo com o ponto de vista. Jovem não tem idade, mas acho que também não tem idade pro teatro, qualquer idade pode ver. (...) Tem várias formas de tu interpreta uma peça. Isso vai da cabeça de cada um, então de acordo com a idade, com a maturidade, com as características das pessoas pode ser interpretado de um jeito ou de outro. Acho que teatro não tem idade, porque dependendo do ponto de vista do espectador a peça muda”. (Augusto)

Sendo assim, a teatralidade residia no nosso olhar e faria parte do exercício da imaginação, onde nos permitimos ser os outros, perceber o mundo a partir dos outros e vislumbrar mudanças possíveis. Seria um ato consciente, que faz emergir tanto do dia-a-dia como da ficção, um espaço imaginário que compreende sem distinção comportamentos, acontecimentos, corpos e objetos.

Definimos que “a condição da teatralidade seria, pois, a identificação (quando ela foi querida pelo outro) ou a criação (quando o sujeito a projeta sobre as coisas) de um espaço outro que o do cotidiano, um espaço que cria o olhar do espectador.”( Feral, 1988, p.6)
A teatralidade surge na modificação das relações entre os sujeitos, o outro se torna ator (pois manifesta-se como tal), ou porque o olhar do espectador assim o define. Ela permite ao sujeito que faz, como aquele que olha, a passagem do aqui a outro lugar.
Para nosso jovem Augusto teatro “é tu mesmo extravasar, mudar tuas emoções para melhor. Teatro é saber passar essas emoções para as outras pessoas que estão assistindo”.

Dentro desta idéia, a teatralidade é, antes, o resultado de uma dinâmica perceptiva, a do olhar que liga um olhado (sujeito ou objeto) e um olhante (também criador).
Como nos conta a jovem Natália “fazer teatro a gente sempre faz. Qualquer coisinha, né?! A gente entra no quarto, já faz aquele teatro: - Ai, mãe não sei o que... começa a chorar porque quer alguma coisa. Isso pra mim é teatro. Quando eu vou no super e a mãe não quer me dar alguma coisa a gente sempre faz aquele teatro. Várias vezes eu já chorei para conseguir alguma coisa, pra me fazer de coitadinha e coisa assim.”

Então, a teatralidade, estaria ENTRE a presença de um ser humano frente a outro da mesma espécie?

Porém, no caso, um deles (o ator) deveria estar permanentemente em contato com a totalidade do seu corpo, sendo mais “sensível”, reconhecendo que é fundamental estar “presente”, mesmo sem “fazer” nada?
Ou deveria o outro transformar o que vê, possibilitando neste encontro uma modificação do olhar, reconhecendo ali a teatralidade?
Ou por sua vez o que importaria é a verdade do momento presente? Seria a teatralidade uma convicção absoluta que só pode emergir se ator e público entram em conexão?

Novamente nos deparamos com o olhar, atribuímos a teatralidade ao olhar, a algo impalpável, mas que nos projeta no mundo sensível, provocando estados, ativando imagens, manifestando algo oculto e misterioso.

Este olhar nos permitiria recriar, voar através da realidade imaginária, transpondo limites físicos e psíquicos, explorando e avançando para além das convenções de espaço e tempo. Essa exigência é necessária para todas as artes, afinal, elas pedem um desprendimento, uma generosidade para percebê-las e senti-las de fato. Elas aguçam nossos sentidos e provocam sensações diversas somente se nós a permitirmos.

Por fim, aguçar este olhar seria despertar algo que já reside no indivíduo: a teatralidade. Revelando-a como uma colaboração do sujeito em relação ao mundo e ao imaginário.

Mas, afinal, o que é teatralidade?


BIBLIOGRAFIA:

BRECHT, Bertold. Poemas 1913-1956. Trad. Carolina Araújo. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2000.

PAVIS, Patrice. Dicionário de Teatro. Trad. J. Guinsburg e Maria Lúcia Pereira. São Paulo: Editora Perspectiva, 1999.

FÉRAL, Josette. A teatralidade. Trad. Francine Roche. In: Poétique, Revue de Théorie et dánalyse littéraires. Ed. Seuil, número 75, setembro, 1988.


[1] Entrevistas realizadas em dezembro de 2007 com LUANA, 19 anos, estuda Hotelaria-ênfase em Turismo no SENAC; NATÁLIA, 16 anos, estuda no Segundo Ano do Ensino Médio do Colégio Aplicação da UFRGS e AUGUSTO, 16 anos, estuda no Segundo Ano do Ensino Médio do Colégio Aplicação da UFRGS. Todos têm contato com o teatro como espectadores e como alunos, atores através da Escola ou de Cursos de Formação. Os nomes utilizados são fictícios.

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sábado, 14 de abril de 2012

Qual a sua relação com o próximo?

Num mundo em que mal temos coragem esboçar um sorriso para um estranho na rua, o fotógrafo Richard Renaldi teve uma ótima ideia com a série Touching Strangers. Para desenvolvê-la, ele pediu que pessoas encontradas na rua, tocassem de alguma forma uma outra pessoa que elas nunca tinham visto antes na vida. O resultado ficou muito interessante e nos permite refletir sobre esse distanciamento natural que temos com relação ao próximo:

Touching Strangers

Touching StrangersTouching Strangers

Touching StrangersTouching StrangersTouching StrangersTouching StrangersTouching StrangersTouching StrangersTouching StrangersTouching StrangersTouching StrangersTouching StrangersTouching StrangersTouching StrangersTouching StrangersTouching StrangersTouching StrangersTouching StrangersTouching StrangersTouching StrangersTouching StrangersTouching StrangersTouching Strangers

Permita que a maravilhosa proximidade que nos une fale mais alto.


Fonte

http://brandstyle.com.br/moda/qual-a-sua-relacao-com-o-proximo


sexta-feira, 13 de abril de 2012

Zentai: muito mais do que sexo

E se quando você tivesse vontade de realizar uma fantasia sexual você pudesse fazer isso sem ser reconhecida? Uma coisa meio Homem-Aranha, com máscara cobrindo o rosto, mas sem superpoderes, claro.

E se você pudesse encontrar outras pessoas com essa mesma fantasia e se relacionar com ela, sem saber quem é quem e sem julgamentos no dia seguinte? Pois isso existe e chama Zentai.

Zentai

* Imagem do site Cheap Zentai

O Zentai é uma prática japonesa que nasceu nos teatros, apenas para shows, mas tomou conta de um grupo de pessoas interessadas em trocar experiências anônimas. As pessoas se vestem com roupas de lycra bem justas, como macacões, que cobrem até a cabeça — bem super herói mesmo — e se encontram para trocar toques e carícias.

Nessa brincadeira sexual não há penetração, sexo oral ou qualquer troca de fluidos. Também não há olhares ou conversas, é apenas o toque e a sensação que isso causa. Como não se vê quem está ao seu lado, o gênero da pessoa também não importa, todos são pessoas.

Há homens que colocam seios sob a fantasia e você nunca diria que são homens. Cada um se veste para o seu próprio prazer, sem tentar alcançar um padrão visual que os outros esperam, já que ninguém se vê nesses momentos.


Em japonês, Zentai quer dizer "o homem em sua totalidade", o que contempla o bem estar e físico, mental e emocional. Essa maneira de cobrir o corpo e o rosto para garantir esse bem-estar pode ter dado muito certo por ser a sociedade japonesa muito tradicional e conservadora.

Mas a brincadeira atravessou os oceanos e chegou ao nosso querido país tropical bonito por natureza. Por aqui ainda são poucos adeptos, mas ouvimos dizer que a febre zentai começa a tomar conta de alguns grupos, como mostra reportagem da revista Marie Claire.

Apesar de nos dizermos um país sem preconceitos, com liberdade sexual e que gosta dessa liberdade, não vivemos exatamente isso e a fantasia pode ser a saída que muitas pessoas encontraram para isso.

O foco do fetiche é o toque, coisa que falta nos relacionamentos atuais, cheios de pressa e com objetivos muito claros. Quantas vezes o sexo não é mecânico e o beijo, o toque, as sensações são deixadas em segundo plano?

Muito mais do que provar a fantasia, o Zentai nos faz pensar no que vem faltando nas nossas vidas para encontrarmos o bem-estar em sua totalidade e nos enxergarmos como um todo. Será que não está na hora de deixar o sexo como vemos todos os dias — sendo visto apenas como penetração e oral — para buscarmos outras experiências que podem dar tanto prazer quanto ele?

Você teria vontade de provar uma roupa Zentai e participar de um grupo desse? Ou usaria apenas com quem você já faz sexo?

Clique aqui para ver uma reportagem feita pela apresentadora Fernanda Lima no Japão sobre a prática do Zentai.


Disponivel em

http://br.mulher.yahoo.com/blogs/preliminares/zentai-muito-mais-que-sexo-151141325.html

terça-feira, 10 de abril de 2012

Belchior: O Grande Poeta. Por Ivo Di Camargo Jr

É difícil falar o que nem todos compreendem bem. O que nem todos estão dispostos a perceber através do som metalizado de um violão de repentistas no meio de uma feira livre da cidade de Sobral, no Ceará. A força do canto poético daquele menino perdia o brilho ao se misturar aos gritos dos vendedores ofertando os melhores preços. Ele havia percebido que não adiantava cantar mais alto, nem falar de coisas do coração pra pessoas apressadas e preocupadas demais com a rotina da feira. Talvez tenha sido essa insistência que tenha dado origem no que eu considero como uma das maiores injustiças cometida contra um músico no Brasil.
Belchior abandou a feira e foi trabalhar como radialista. Aprendeu como funcionava a dinâmica da música até sair no radinho de pilha das casas de toda a cidade. Foi estudar medicina na capital, mas abandonou o curso faltando apenas dois anos pro término e se dedicou à música que ele sempre quis.
Pouca gente da minha geração ou de idade menor conhece a música de Belchior. Por sorte, eu tive grande influência da música brasileira por intermédio de grandes pessoas que conheci na vida. Tive contato com suas músicas após minha adolescência e sempre compreendi o sentimentalismo existente nelas. Esses dias, ouvindo antigos discos, ouvi um exemplar de Alucinação, que é um de seus melhores discos, quase uma compilação de suas melhores músicas. Escutei, como sempre, sem pretensões e me surpreendi com a profundidade das mesmas músicas que eu escutava adolescente. À palo Seco, Paralelas, Como Nossos Pais e Galos, Noites e Quintais,Velha roupa colorida e Comentários a respeito de John são minhas preferidas. Não é difícil identificar nelas o sofrimento de alguém que cansou de compreender o mundo a sua volta e não ser compreendido por ele.
Suas músicas quase sempre retratam medo, tristeza e insatisfação. Foi crítico ferrenho da ditadura, era amante incondicional do Brasil e da América do Sul, o que o torna símbolo de universitários que ainda procuram revoluções nos dias de hoje. Produziu um som de vanguarda e tornou-se o primeiro grande cantor nordestino da MPB. Foi referência pra inúmeros cantores e bandas que mudaram o curso da música no Brasil.
No entanto, Belchior teve um sucesso razoável e nunca foi valorizado como realmente deveria ter sido. Percebeu isso com o mesmo olhar do menino que cantava na feira de Sobral, sofreu grandes depressões por isso. Vagou sem rumo jogando fora poesias em pequenos bares do interior de São Paulo, onde viveu muito tempo.
Até que um dia, se deu conta de que o Brasil não é mais o mesmo. Até tentou se mudar pra um vilarejo no interior do Uruguai, mas não conseguiu ficar lá por muito tempo. Às vezes diz sentir aflição ao ver os jovens brasileiros cultuando tanta porcaria que é produzida e que eles chamam de música. Tudo isso são realmente sérios motivos para não ser feliz. Mesmo assim, Belchior ainda canta muito mais, porque não é mudo. Porque não se esqueceu do menino e seu violão metalizado, que, na feira de Sobral, não se importava mais se não era ouvido.
O que eu desejo aprofundar depois desta introdução é o porquê deste esquecimento de um dos maiores de nossa música. Aprendi com o grande Descartes que, antes de tudo, é preciso método. Por isso, desde muito cedo guio-me pelo seguinte, inquebrantável e repetido hábito total pensamento e reflexão dos grandes debates que inquietam a nação.
Em nome da preservação do meu resto de sanidade, sempre vou ao embate às importantes discussões no início de semana – especialmente quando estou na fila do banco, desesperado, procurando uma fórmula para amenizar as dores de minha maltratada conta bancária., tal como o tal rapaz latinoamericano que nem dinheiro no banco tinha.
Por que eu falo disso agora? Porque muita gente só se deu conta do grande Belchior depois que o fantástico dois anos atrás levou ao ar a historia do seu desaparecimento.
Amigos pensem bem e vamos valorizar um dos maiores poetas de nossa música. Suas canções, bem maior de um compositor, estão vivas e presentes na memória dos brasileiros que o ouviram cantar, e viam aquele hippie de vasto bigode, lirismo triste e combativo, e versos incomuns. Se alguém, de repente, começa a cantarolar “não quero lhe falar, meu grande amor/ das coisas que aprendi nos discos/ quero lhe contar como vivi/ e o que aconteceu comigo...”, é impossível não se lembrar da interpretação de Elis Regina, e de como aquela gravação se tornou um standard da música brasileira. As cantoras que vieram bem depois de Elis, como Daniela Mercury, gostam de cantá-la pra chegar perto do modelo de cantora que é Elis.
Ou uma canção tal como “Nunca mais meu pai falou, she’s leaving home, e meteu o pé na estrada, like a rolling stone” nos faz pensar em muito da contracultura que tropicalismos a parte, Belchior sempre rejeitou e que hoje são vedetes em vestibulares em detrimento de poesia boa do século XIX. A música de Belchior é a notícia mesmo de que o sonho havia acabado, contrapondo-se inteligentemente à alegria tropicalista: “nada é divino, nada é maravilhoso/ ao vivo é muito pior“. Há uma urgência em seus versos, e na sua interpretação angustiada, sanguínea, sensual, quase falada: “quando eu cantar/ quero ficar molhado de suor/ e, por favor, não vá pensar que é só a luz do refletor“.
E há – por que não? – uma nostalgia como no subtítulo de Mucuripe, “jovem também sente saudade”. A sessão de cinema das cinco, a camisa toda suja de batom. E uma canção alegre, Medo de avião, releitura de I wanna hold your hand, dos Beatles, e que ganhou uma outra melodia de Gilberto Gil, também bonita.
Estou lembrando dos versos e ouvindo as canções aqui na minha rádio-cabeça, aos pedaços, e tendo bem presente os instantes em que, mais jovem,ficava fascinado por um verso que dizia “eu quero é que este canto torto feito faca corte a carne de vocês“. Há uns cinco anos, vi Belchior cantando essa música no programa Altas horas, junto com o Los Hermanos. Esta no youtube pra quem quiser ver.
Das canções cujas letras ganham versões maliciosas e populares tem aquela que diz “aí um analista me comeu”, em vez de “aí um analista amigo meu”, que é a letra original. É engraçado, e não é pouco. Caymmi uma vez disse que seu sonho era ser um autor de algo que se perdesse no meio do povo. Aconteceu com ele, e, de certa maneira, com Belchior.
Esse texto não é e nem pretende ser um necrológio, pois Belchior, graças a Deus, ainda não morreu. Ele só sumiu, ou sumiu só. Mas eu sei onde ele anda: em suas canções imorredouras, vivas, presentes e, ainda e sempre, urgentes. Além, no Corcovado, quem abre os braços, é Belchior. Copacabana, o mar, as borboletas pousando entre as flores do asfalto, são Belchior, talvez cansado de nós, repousado de nós, infinito de nós.
Abraços e Outras quimeras …
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TEXTO CRÍTICO: ENTRE O SAGRADO E O PROFANO NO ESPETÁCULO CELSIANO

O totem do teatro de vanguarda brasileiro, Zé Celso Martinez Correa, era a atração principal de uma festa em comemoração aos 108 anos do Teatro Alberto Maranhão. Quando desceu de seu táxi, Zé Celso sequer notou o homem-elefante performado pelo artista Enio Cavalcanti. O performer, vestido com uma bandeira do Rio Grande do Norte e uma cabeça de elefante feita de papelão, depois de 24 horas sem comer, prostrou-se em frente ao TAM, entregando um conto-manifesto escrito por ele mesmo em crítica à situação da vida cultural da cidade. Não obstante a força de sua presença, permaneceu meio anônimo por toda a noite. Já dentro do teatro, os sorrisos bêbados da pulsação orgiástica emanada do corpo do renomado filho de Baco e a devoção estampada na face do público.

Zé Celso é conhecido por seu trabalho no Teatro Oficina, iniciado nos anos 60; por sua apropriação das idéias antropofágicas lançadas por Oswald de Andrade; e pelo caráter carnavalizado de seu trabalho. Em sua “palestra”, no TAM, falou sobre tudo isso e mais. O teatrólogo aproveitou seu espaço para fazer críticas à Presidenta Dilma Roussef, acusando-a de reduzir a multiplicidade brasileira a um regime tecnocrático de saber. Para ele, a cultura deve ser a preocupação central de um presidente, porque é nesse nível em que a sociedade tende a movimentar-se. Mas não se trata de compreender a noção de “cultura” somente como um regime de produção e difusão artística, mas em sentido amplo: cultura como aquilo que comemos, sentimos, da forma como vemos o mundo e agimos nele.

É próprio da comunicação de Zé Celso sair dos moldes da palestra, constituir em tom de bate-papo uma zona de intimidade, altamente contaminada pela energia que seu corpo dissemina. O artista, a fim de remexer na passividade da platéia, produziu um cortejo de alegria carnavalesca que nos tirou praticamente a todos de nossas poltronas, lançando-nos à ação festiva num espaço desprendido de suas amarras. Pode-se dizer, no limite, que o que o papa do Teatro Oficina cria é um ambiente livre, onde os fluxos de energia podem correr corpo a corpo. No entanto, paradoxalmente, como um maestro a orquestrar as posturas de sua platéia, por vezes, ele atira: “Você, descruze os braços para não interditar o trânsito de energia!” Ora, parece-me que essa orquestração vai à contramão daquilo que ele propõe – um teatro onde a energia corra de maneira horizontal. Não será esse dedo-diretor de Zé Celso uma forma verticalizada de gerir a energia? Será que, nesse rompimento com a fluidez do ambiente, ele não limita, justamente quando propõe o além-limite?

Para além disso, Zé Celso é um panfletário do fim da Idade Mídia – esse período de controle sutil, apropriação biopolítica dos corpos e valoração hipócrita da vida. Num chamamento profano do pós-mundo, Zé Celso bebe vinho, suscita um teatro pós-disciplinar (ele chega a comparar o palco italiano ao altar de um padre) e nos convida a um retorno abissal ao rito de origem do teatro. Nesse ponto, devo falar sobre essa idéia de origem de modo a pensá-la de forma um pouco distinta da que estamos acostumados. A origem das coisas é, antes, um estado de indeterminação, uma prenhês permanente, em que nada ainda é e o que há é uma multiplicidade de possíveis. É nesse estado em que Zé Celso – o antropófago (aquele que tem fome de tudo o que não é) – nos deixa, nesse lugar em que tabu e totem indefinem suas bordas, onde não há mundo, há mundos.


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http://vertentesdacritica.wordpress.com/2012/04/10/texto-critico-entre-o-sagrado-e-o-profano-no-espetaculo-celsiano/

terça-feira, 3 de abril de 2012

Arte em fragmentos

"Eu redijo um manifesto e não quero nada, eu digo portanto certas coisas e sou por princípios contra manifestos (...). Eu redijo este manifesto para mostrar que é possível fazer as ações opostas simultaneamente, numa única fresca respiração; sou contra a ação pela contínua contradição, pela afirmação também, eu não sou nem para nem contra e não explico por que odeio o bom-senso." (Tristan Tzara)