Pra quem estuda teatro no Rio Grande do Norte, não tem como passar despercebido a existência artística desse coletivo teatral que desde 1983 leva a arte para as camadas populares, facilitando o acesso à cultura, feita por pessoas comprometidas com a existência desse fenômeno artístico e cultural chamado teatro.
As Aventuras de Pedro Malazartes - Festival Agosto de Teatro - 2009
Dona de uma trajetória marcada pela força do teatro de rua com mais de 42 anos de história, a Cia Alegria Alegria conquistou reconhecimento não apenas em festivais nacionais, mas também em palcos internacionais como Portugal e Chile nos anos 80, levando a arte potiguar a diferentes culturas e inspirando gerações de artistas e espectadores, que tiveram o privilegio de assistir e contemplar alguns de seus tão especiais espetáculos.
É notório compreender que a Cia teatral Alegria Alegria desenvolve junto à comunidade aspectos da cultura popular, levando Teatro às ruas das cidades potiguares e por muitas vezes do país. A Cia deu início as suas atividades a partir de uma pesquisa sobre o Palhaço Popular do Nordeste, logo, o coletivo promoveu a expansão dessa pesquisa ao interior do Rio Grande do Norte com Espetáculos de Rua.
Certa vez Grimário Farias, um dos fundadores do grupo, afirmou a folha digital "A Nova Democracia" o seguinte reciocinio: "Saindo das amarras da ditadura, o espaço rua veio naturalmente como o anseio de uma liberdade sonhada. Um voo rumo ao infinito, a vontade de mudar as coisas, de chegar perto do povo falando não somente da nossa felicidade de estar ali, mas, alertando para a possibilidade de mudança, de uma sociedade melhor ".
O reconhecimento do grupo veio após a montagem do primeiro espetáculo pelo título de "As Aventuras de Pedro Malazartes" de autoria de Racine Santos, autor natalense, sendo adaptado de folhetos de cordel. O texto conta a hilariante aventura de um anti-herói, sendo mudado durante os anos em que foi representado graças a participação do povo. Essa peça proporcionou ao grupo mais de 2.200 apresentações, e deflagrou no estado a criação de vários outros grupos.
Certa vez o ator e um dos fundadores do grupo Alex Ivanovich contou para o Tribuna do Norte que no Alegria Alegria além dele, tinha "Júnior Santos, João Maria Pinheiro, Beto Vieira, Grimário, Dimas Marques e Galvão Filho. As primeiras músicas foram feitas por Galvão. João Marcelino idealizou os primeiros figurinos e adereços, depois veio a Kátia Dantas pra completar o coletivo. O grupo chegou a ter uma sede no Beco da Lama, perto de onde hoje tem o Bardalos bar. Tinha escritório, uma oficina, sala de figurinos, uma cozinha, quarto de hóspedes com beliches e ares-condicionados e, no quintal, onde tinha uma porta para rua, no qual montaram um bar que funcionava nos finais de semana". O mesmo ainda afirmou que o grupo sobrevivia de espetáculos vendidos. A rua era uma vitrine, pois era daí que vinham os convites para viajar.
Com o passar do tempo, o grupo foi revezando suas componentes, porém,
não deixando se perder a essência original. Um dos espetáculos recentes dessa
trajetória, foi o Auto do Caldeirão, texto de Oswald Barroso. A peça contava de
forma dramática a historia do
paraibano José Lourenço, um beato muito correto em sua jornada, que em 1894, foi até o
Juazeiro, onde, soube de um padre que fazia milagres. Na cidade, ganhou fama de
radical, praticante e defensor da autoflagelação. Ele Conhece o padre Cícero e, com o tempo, torna-se homem de sua confiança e um
dos líderes de sua congregação. Mesmo assim convivia às turras com a polícia e era tido como inimigo de Floro Bartolomeu, que via nele um
perigo por causa de seu fanatismo.
O Auto do
Caldeirão foi um dos espetáculos que mais marcou a trajetória da Cia potiguar,
pois trazia a tona uma história tensa e cheia de reviravoltas cênicas. Com
musica e drama em seu corpo cênico.
Logo após,
o grupo montou Lampião vai ao Inferno buscar Maria Bonita, com direção de
Makarios Maia. Tendo sua estreia em Campina Grande-PB em 2010 no projeto Arius
de Teatro de Rua, também sendo apresentada no palco do Teatro Alberto Maranhão.
Para dar continuidade aos trabalhos, o Alegria- Alegria sempre busca fazer novas leituras, oficinas e ensaios abertos como era feito no canto do mangue por um determinado período.
Assim,
podemos notar a importância desse grupo, como o maior expoente do teatro de rua
do Rio Grande do Norte. Sendo respeitado em sua longa trajetória, como uma
verdadeira escola de teatro. Não é a toa que ele vai ser citado em livro com
maestria, participar de festivais junto a grupos como o Imbuaça e o Tá
na Rua. Que esse legado perdure, que a arte continue e o teatro resista ao
tempo, se renovando cada vez mais.
Finalizo esse texto citando uma frase do Auto do Caldeirão:
"Morreu, morreu o boi mansinho
O Boi do laço de fita
Mas todo boi de brinquedo
Comentam que ressuscita"
Vida longa ao Alegria Alegria!
Evoé!
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