segunda-feira, 19 de novembro de 2012

RE-Postagem : O que o pastor não vê (Crônica)

Dessa vez a re-postagem que trago é uma crônica que escrevi há dois anos atrás. Creio que é um texto que ainda está bem atual em sua temática. Revisei a ortografia e com carinho re-posto O que o pastor não vê.

Por Fábio Fernandes



Encontro-me assim, sem saída, engaiolado como um passarinho, que acaba de perder sua liberdade. Pergunto-me o que foi que fiz de mais? Questiono-me todos os momentos... Duvidas não param de vir a minha cabeça...Só porque senti fome? Será que é proibido sentir vontade de comer? Bem que queria que isso fosse verdade... Assim com certeza não me encontraria aqui enjaulado, como um leão de circo, imobilizado, sem força e nem espaço pra caçar... Esperando que venham me dar comida quando bem entenderem. 

Juro que não queria fazer isso, não é do meu agrado desonrar ninguém. Mas se peço , ninguém me dar, se procuro uma ocupação, nada encontro . O que fazer se nada tenho ? Se moro na rua? 

As vezes penso em me matar, mas o pastor falou que só Deus dar a vida e somente ele tem o direito de tomar. Mas o pastor não está com fome... e sinto que Deus num ta mais nem ai pra mim. Já vi tanta gente vivendo em paz, já vi tanta coisa boa, mas por que logo comigo a vida tinha que ser assim? Minha mãe morreu, meu pai sumiu; família - só escuto falar o que é. 

Mas o pastor continua a dizer que Deus está comigo. Então porque que me sinto só? Só queria matar a fome, não queria pegar no que não é meu. Não queria viver erradamente. Sabe quando você chega num lugar e vai comprar qualquer coisa e o rapaz pergunta se é fiado e que você paga a vista? Essa era minha vontade, mas a prefeitura me proibiu de pastorear carros na rua, alegando que a gente poluía o ambiente e que flanelinha era coisa ilegal.

 Mas o pastor falou que Deus vai me dar muitas coisas, até uma tal “proeza” que não tenho a mínima ideia de quem seja. É triste querer morrer e não conseguir... Querer vencer, mas não ter forças pra alcançar a vitoria sozinho. Queria ser como o pastor, cheio de confiança, fé na vida e sair aconselhando as pessoas com fome a não se matarem. 

O pastor falou que somos todos iguais perante Deus, e que ele nos ama sem distinção... Mas por que o pastor é rico e eu sou um miserável? Sabe, acho que o pastor se enganou... Ele quando me viu com fome me mandou ter paciência, esperar no senhor e disse também que nem só de pão vive o homem,mas de toda a palavra... Já estou sem aguentar tanta palavra...Mas o pastor come. Eu só queria ser o pastor por um dia.


Texto original [Natal 2010-04-22]
Texto revisado [Natal 2012-11-19]

Postagem original:
http://maricalman.blogspot.com.br/2010/04/o-que-o-pastor-nao-ver.html

OPINIÃO - O outro lado da poesia de Renato Caldas

 Por Fábio Fernandes
Como todos que acompanham esse blog sabem, sempre divulgo com louvor o trabalho desse mestre da poesia assuense (Assu-RN), seja postando poesias, comentando sobre sua vida e obra e também na preocupação com a memória de nossos poetas tão importantes para o meio cultural. Isso me torna feliz e realizado por ter feito a "minha parte" no preparo do bolo.  

Renato escreve muito sobre o sertão, a vida rural, as pessoas e todo o seu proselitismo acerca da vida regionalista. Em Assu, por exemplo, o poeta discorre lindamente o universo urbano e seu cotidiano exaltando o trabalho da cidade:

Assú de chapeu de palha!


Que luta... vive e trabalha



Somente para comer.



Assú que vive sofrendo

A própria dor escondendo

A angústia do seu viver!

O poeta logo se mostra um amante do lugar onde viveu, este é muito saudosista, tem uma visão otimista em relação a continuidade e ao valor da poesia no local :



Heróis, poetas, escritores



Boêmios e trovadores



Ilustraram tradições!

Que não serão sepultadas

Para serem proclamadas

Pelas novas gerações.

Logo se vê  quão sonhador era nosso poeta. No mesmo poema a cultura popular também é exaltada:


Dança dos Congos, Lapinha,



Folguedos da argolinha,



Bumba meu boi! Pastoril

Eram brincos engraçados,

Hoje porém divulgados

De norte a sul do Brasil.

Bem, percebe-se de imediato que Renato era um homem muito sábio, ele usa o termo "eram" do verbo "Ser", este pretérito (mais que perfeito) condiz com a realidade cultural da cidade - não se tem conhecimento de lapinha, folguedo de argolinha algum, bumba meu boi e vagamente se sabe de pastoril por lá. Mas não é dessa desvalorização com os fenômenos culturais que quero falar, minha excitação em escrever esse artigo, é de evidenciar a visão machista e preconceituosa proveniente da geração de Renato Caldas.
 Sabe-se que Renato nasceu no inicio do século xx, num período muito difícil com relação a economia do país, o quadro politico era de grande retrocesso para o homem do campo, não tínhamos politicas voltadas às ditas minorias, movimentos sociais fortes e nem ao menos "facebook" pra compartilhar raríssimas coisas importantes.
Do livro "Fulô do Mato", um clássico da poesia potiguar na minha singela opinião, me pego lendo o poema "Home":

Home que larga a muié,

Pra vivê c'uma sujeita;

Ou esse cabra num presta, 

Ou entonce é coisa feita.


Home que vévi se rindo,

E diz que nunca chorô;

Ou esse cão ta mentindo,

Ou por ôta nunca amô.


Home que deixa a muié,

In casa-e vai passiá...

O fim dele tem que sê:

No sumitéro ou hospitá.

Até aqui tudo bem,percebe-se que o ideal-tipo de homem daquela sociedade de inicio do século era um "homem perfeito" voltado único e exclusivamente para a família, um sujeito sem pecado e   politicamente correto ao extremo. Esse pensamento sugere uma sociedade utópica, visto que não existe se quer ser tão puritano a tal ponto. Ainda no mesmo texto o poeta escreve:

Home que anda inlordado,

Sem tê uma ocupação...

No mundo só pode sê:

Ou vagabundo ou ladrão.

A principio aprendo uma palavra "nova" (inlordado) -provavelmente uma gíria da época- acredito que seja alguém que não trabalha e só vive de "vida boa"- isso nos dias de hoje se configura na figura dos "playboyzinhos e/ou filhinhos de papai". Mas quando o homem não tem ocupação é tido como ladrão ou vagabundo: vale salientar que uma pessoa de ocupação para o homem rural seria alguém que vivia trabalhando no campo com uma pá e inchada na mão. Então o que dizer de mim que optei por estudar? Sempre levei o nome de vagabundo por ter deixado a inchada e optar pelos livros - o que dizer a respeito desses que pensavam assim? (Risos).

O grupo GLBT não iria gostar nada de ler o ultimo trecho do poema, sem a menor sombra de dúvida. Assim o texto revela:

O freguês da fala fina,

Que num gosta de muié!

Vamo atraz, que essa peste,

Tem um defeito quarqué. 

Falar que esse raciocínio é preconceituoso e homofóbico seria o minimo pra o texto, nota-se que o ideal-tipo do homem assuense tinha de ter a fala grossa. Exame de prostata nem pensar, seria preferível um câncer do que sujar a honra com uma dedada no reto. A orientação sexual é tida aqui como uma anomalia, a visão machista e cristã da época reflete valores que martirizam a figura do gay, pois o fato de ser homossexual é tido como um defeito - Silas Malafaia e Jair Bolsonaro sem dúvida iriam amar o desfecho desse poema.

Enfim, é lamentável ver que num texto tão saudosista,a principio inteligente e sem dúvida lindo de  ver e  ler em vóz alta tenha um teor desagradável em sua interpretação critica. Não coloquemos a culpa no Renato Caldas, este é apenas mais um cidadão que não teve  acesso as outras formas de pensar os assuntos vigentes e constituintes de uma sociedade. Temos é que tirar desse exemplo, a imagem negativa que nossa sociedade possuía  para que desta forma possamos ensinar realmente através do respeito mutuo ao outro que a possibilidade de diversidade de opinião e gênero deve ser a priori o caminho que nossos filhos devem andar.




Saiba mais sobre Renato Caldas:

http://maricalman.blogspot.com.br/2012/08/re-postagem-um-pouco-sobre-o-poeta.html

Arte Urbana -Praia de Ponta Negra- Natal - RN

Ao andar pela beira-mar de Ponta Negra, aqui em Natal, vi um pouco de suas manifestações artisticas, obviamente que resolvi registrar. Vale salientar que nem só  arte e belas imagens compõem o cenário dessa praia (descaso da gestão pública atual) seja o calçadão desmoronando, a poluição e outros problemas mais "pesados". Nosso blog, no entanto tem o intuito de revelar aspectos artístico-culturais que permeiam nossos mais diversificados espaços. Pensando dessa forma registro aqui alguma imagens "legais".







Essa seria a arte marginal?
Apreciar a arte, eleva o pensar ao subjetivismo
Quadros com evidencia forte nas pinturas sobre a temática indigena




 "Acredito que a praia-mar é uma obra de arte que a mãe natureza fez o favor de caprichar durante o seu delicado processo criativo"

 (Grifos meus)

Estudos Culturais do Teatro (UFRN)

Na disciplina Estudos Culturais do Teatro, ministrada pelo Profº Me. Makarios Maia Barbosa (UFRN) pude vivenciar experiencias maravilhosas, tanto nas discussões teóricas acerca do vasto campo da cultura como um todo até a investigação dos fenômenos culturais em seu cerne. A exatamente uma semana atrás, estivemos em campo pesquisando o boi de reis do Município de Vera Cruz-RN, esta experiencia só veio a somar na construção do conhecimento a respeito das manifestações populares.
Estas foram algumas imagens dessa riquíssima construção do conhecimento:
Tive que tirar uma foto tendo o grupo como paisagem

O Prof Me. Makarios Maia (UFRN) conversa com o mestre Jovelino


Os galantes do boi

O atual "Mateus" do Boi fala sobre suas experiencias no folguedo.

Nêgo Mateus brinca 

Mestre Jovelino fala sobre a importância do fenômeno cultural para a história da região.

Registros - essenciais
Anciãos do pequeno sitio de Santa Cruz em Vera Cruz -RN
"Crianças dão continuidade ao folguedo"

O meste "Jove" ainda nos contando mais sobre o boi

Não deixe meu boi morrer


Esse boi tem de viver muito!




Viva o Boi !




sábado, 17 de novembro de 2012

Carta surda (Lid- Galvão)


 Por Lid Galvão

Sabe quando você sente a necessidade de permanecer calada(o), sendo que seu silêncio já perdura tanto que agora não consegue sequer convencer a si mesmo? Sempre fui meio equivocada, mas talvez não exista distinção entre a minha torre e a de Rapunzel. A não ser quando ela atrai alguém para salvá-la. Aí com o resto da picaretagem vocês estão acostumados. O certo é que não é difícil entrar em acordo com um beco sem saída. Conversando a gente se entende, é o que dizem. Agora se você vai ceder mais, ou menos, que a outra metade interessada, eu só tenho a dizer uma coisa: Todo mundo, alguma vez, já acordou como se tivesse morrido. Mas isso não impede você de ser um idiota bom(a) moço(a) por não querer revidar. Não estou dizendo pra ser um(a) mau perdedor(a), só acho que a justiça também pode ser injusta.


Faz dias, e sempre me parece que foi noite passada, não sei quem é Joana, mas ela estava no meu sonho dando uma de profetisa. Ela usava um vestido branco como que pra combinar com alguns fios de cabelo. Ela acertava todas, e na minha vez de fazer perguntas, optei primeiro por respostas que satisfizessem os ouvidos de gente alheia que estava prensente. Eu tinha uma nova pergunta, dessa vez pra mim. E Joana tinha os olhos azuis e soberanos rindo o tempo todo, humildemente, da minha subjetividade angustiada. Compreensiva e terna, como a jarra de suco que minha vó sempre guardava pra mim, Joana dizia que não tinha que ser o que eu achava realmente que tinha.

Francamente Joana, você fala como se eu não tivesse o que responder. Eu que às vezes não sei se rio porque tenho algo que me faz única, ou se me ponho a gastar meu orgulho em função de um desfarçado e desacreditado entusiasmo; Eu que sei que estou fazendo alguma coisa de errado comigo, mas que me falta descobrir o que é. Aliás, me falta uma resposta. Por que alguém se ocuparia em trazer alguém pra perto se não queria que ficasse?
Sabe o que me parece? Que Joana se sente incomodada com a pergunta. Provavelmente, anda formulando seus argumentos. Se bem que se ela for mesmo profetisa, vai saber que espero um reencontro. Talvez seja o mesmo que pedi para a àgua não correr sobre a terra, e o mesmo que dizer "não" duas vezes sem saber a tradução certa.  Lealdade, pra mim, nunca esteve no real sentido de sua etimologia. Se a leadade quisesse ser leal consigo mesma, adotaria como sobrenome - no mínimo - as palavras "imbecil" e "acovadada". Não é o mal que me frustra o crescer das unhas, ou esse bando de sílabas recalcadas; e sim o bem. Aquele que tende a imbuir-se orgulhosamente de branco. Cada pessoa tem um modo particular de invocar o sono, quando necessário. Algumas crianças precisam de luzes acesas. Eu, com poucas distinções, dessa aliança supersticiosa...



BLANCHETT, Lidiane. 24 de março de 2011.


Disponivel em:
http://www.recantodasletras.com.br/cartas/3885573

sexta-feira, 16 de novembro de 2012

Filmes que parecem para criança, mas não são


Vamos relembrar de alguns filmes que parecem de criança, mas, na verdade, têm temática adulta:
Radio Flyer (Estados Unidos, 1992)
Diretor: Richard Donner.
Por que o filme parece ser infantil? Do mesmo diretor de Os Goonies, parece uma história bacana de aventuras de dois irmãos, Mike e Bob, vividos por Elijah Wood e Joseph Mazello, respectivamente.
Qual é a verdadeira história dele? Com narração em primeira pessoa de Mike adulto (Tom Hanks), a história verdadeira é a de dois irmãos que lutam contra os abusos físicos e sexuais do padrasto alcoólatra.

Uma cilada para Roger Rabbit (Estados Unidos, 1988)
Diretor: Robert Zemeckis
Por que o filme parece ser infantil? Um desenho animado de um coelho meio malucão e engraçadinho, com uma trama de aventura meio policial.
Qual é a verdadeira história dele? O coelho Roger Rabbit suspeita da fidelidade de sua mulher, a sensual Jessica. Então, contrata o detetive Eddie Valiant, vivido por Bob Hoskins, para investigá-la. As coisas se complicam quando Marvin Acme, o possível amante de Jessica, é encontrado morto e Roger vira o suspeito. Infidelidade, assassinato, insinuações sexuais. 

Howard, o Super-herói (Estados Unidos, 1986)
Diretor: Willard Huyck
Por que o filme parece ser infantil? Baseado em uma história em quadrinhos, fala sobre Howard, um pato engraçado e feliz que vive em outro planeta, mas é trazido para a Terra por causa de um raio. Na Terra, ele conhece Beverly Switzler, que se torna sua única amiga.
Qual é a verdadeira história dele? Howard tem características de adulto, bebe cerveja e é umvoyeur compulsivo. A amizade com Beverly vira namoro, inclusive com cenas que insinuam relações sexuais. Já no trailer do filme, ela aparece de calcinha.

Mundo proibido (Estados Unidos, 1992)

Diretor: Ralph Bakshi
Por que o filme parece ser infantil? Na mesma linha de Uma cilada para Roger Rabbit, mistura cenas de animação com atores reais e dá ideia de ser apropriado para crianças.
Qual é a verdadeira história dele? A verdadeira história é que a sexy Holli, criação do desenhista Jack Deebs (Gabriel Byrne), seduz e leva seu criador a um mundo paralelo, em que os desenhos têm vida própria. O objetivo da dançarina é ter relações sexuais com Deebs para que ela se torne humana e possa fugir para o mundo real.

Papai Noel às avessas (Estados Unidos, 2003)

Diretor: Terry Zwigoff
Por que o filme parece ser infantil? História de Natal, com Papai Noel, um garoto gordinho simpático que acredita no bom velhinho, espírito natalino...
Qual é a verdadeira história dele? Na prática, o bom velhinho é Willie, interpretado por Billy Bob Thornton, um golpista alcoólatra que rouba shoppings na época do natal, junto com seu ajudante, Marcus. Mas Willie se redime depois que um garotinho gordinho senta em seu colo para fazer o pedido de Natal. Ele se sensibiliza com a história do garoto, que vive com a avó. A mensagem bonita no final não apaga todas as cenas de sexo e uso de álcool e drogas do roteiro. Uma ótima comédia para adultos, mas não é recomendável para crianças.

Disponivel em:
http://br.tv.yahoo.com/noticias/filmes-que-parecem-para-crian-mas-n-o-171700645.html




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terça-feira, 13 de novembro de 2012

Assu por Renato Caldas - Fotos de Jean Lopes.



Assú

Assú de chapeu de palha!
Que luta... vive e trabalha
Somente para comer.
Assú que vive sofrendo
A própria dor escondendo
A angústia do seu viver!


Heróis, poetas, escritores
Boêmios e trovadores
Ilustraram tradições!
Que não serão sepultadas
Para serem proclamadas
Pelas novas gerações.


Meu Assú das vaquejadas!
Das noites enluaradas...
- Que gratas recordações!-
Cantigas feitas de sonhos
Dos seresteiros risonhos, 
Conquistando corações.



Dança dos Congos, Lapinha,
Folguedos da argolinha,
Bumba meu boi! Pastoril
Eram brincos engraçados,
Hoje porém divulgados
De norte a sul do Brasil.


E, como o tempo é cruel!
Jogos de prenda... e anel
Ninguém sabe onde ficou?!...
Sei eu, onde está guardado
O meu Assú do passado,
Minha saudade guardou.




Imagens :
http://assueassim.blogspot.com.br/