sexta-feira, 11 de setembro de 2026

A arte em barro contada pelos Oleiros pernambucanos.

As mãos que batem firmes são as mesmas que acariciam, moldam, transformam e recriam a arte em barro. A arte mais crua, pura, reveladora de costumes, desejos. A face de uma comunidade esculpida entre os dedos. Essa é a leitura de quem chega ao Centro de Artesanato Arquiteto Wilson Campos Júnior, no Cabo de Santo Agostinho.

Essa história teve início em 1970, quando um grupo de artesãos resolveu arregaçar as mangas, produzir arte em barro e comercializar as peças. Foram duas décadas de crescimento e pujança. “Eles tinham uma produtividade muito grande e se dedicavam aos utilitários. Mas no início dos anos 90 começaram a enfrentar o que seria uma década de decréscimo produtivo e grandes perdas econômicas. Então, partiram à fabricação de filtros de barro, o que garantia apenas a subsistência”, conta a pesquisadora do Laboratório O Imaginário, Germannya D’Garcia.

Peças criadas no Centro (Foto: Ademar Filho)

O Imaginário é vinculado à Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) e tem o objetivo de atender demandas relacionadas às produções artesanal e industrial, envolvendo professores, estudantes e técnicos de diversas áreas do conhecimento, integrando à extensão os segmentos de ensino e pesquisa da instituição. Junto ao Sebrae e outros parceiros, agem como consultores e fomentadores de recursos e novas parcerias, para que o Centro “ande com as próprias pernas” e siga somando bons resultados.

Grupo conta com parceiros como O Imaginário (Foto: Ademar Filho)

“Nosso foco é a comunidade, o grupo. O Imaginário treina o artesão, faz diagnósticos, busca parcerias para que eles sejam capacitados em gestão, mercado, contabilidade, comunicação, tecnologia. O grupo tem o apoio fundamental da prefeitura do Cabo (que garante o prédio, a estrutura, água, luz, segurança), do Banco do Nordeste, da Copergás, da Roca, do SENAI, SEBRAE, Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação, do Governo Federal e da Petrobrás”, explica Germannya.

São 15 artesãos trabalhando diariamente no local (Foto: Ademar Filho)

Ela conta, ainda, que quando o Sebrae e O Imaginário chegaram à comunidade em 2002 encontraram os artesãos “escravos” do filtro. E que o diagnóstico foi de potencial gigante precisando ser reavivado, para que os artistas voltassem a produzir arte. “Eles tinham muitos problemas, mas o primeiro era que só faziam filtros, vendiam a R$ 5 reais e os atravessadores chegavam, colocavam duas velas e uma torneira e vendiam a R$ 40. Além disso, enfrentavam dificuldades com o forno (que não correspondia à técnica que eles queriam e precisavam usar). Eles queriam esmaltar as peças e buscaram o Sebrae para isso. A captação de argila também era um problema, além das questões de segurança do trabalho”, relembra.

Trabalho em grupo move a produção acelerada (Foto: Ademar Filho)

Com os novos parceiros, a arte em barro passou pela reconstrução da imagem do grupo, para levar a imagem do Cabo de Santo Agostinho para o mais longe possível, para que a comunidade saísse dos filtros e dos atravessadores e para que os artesãos fossem os protagonistas de suas histórias.

Anos de trabalho trouxeram autonomia e maturidade (Foto: Ademar Filho)

“Hoje eles se dedicam à arte. O ganho maior vem em uma palavra: autonomia. Existe a questão afetiva que nos une, mas eles conseguem trabalhar sozinhos, organizam suas finanças, administram as questões de gestão e relacionamento. Graças ao investimento público e privado e ao capital humano. Eles são cooperados sem formalmente ser uma associação. Trabalham em grupo, um aprendendo a ajudar o outro e todos ganham”, reforça.

Mestre Nena e sua arte em barro

A serenidade de quem lida com o barro há 50 anos e há três recebeu, do Estado de Pernambuco, o título de Mestre. A certeza de quem sabe bem os tropeços todos do caminho vencido e das conquistas de quem persiste, aprimora, segue firme, puxando outros e outras para cima. Assim, ele ajuda também a elevar a arte, os artistas, a técnica, a cultura e uma comunidade.

Mestre Nena (Foto: Ademar Filho)

“Ajudava, aos cinco anos de idade, o pessoal da olaria que havia perto de casa. Comecei aprendendo a fazer telhas. Fui tomando gosto pela coisa, aprendendo e quando vi já não queria fazer outra coisa”, conta o Mestre Nena, uma espécie de professor, coordenador, mentor do grupo de 15 artesãos que fazem o Centro de Artesanato do Cabo de Santo Agostinho.

Artesãos do Centro de Artesanato do Cabo (Foto: Ademar Filho)

Junto com ele estão Joselma (esposa de Nena), Dona Sônia, De Melo, Cida, Guel, Tina, Suely, Dinho, Deó, Fio, Diego, Joselita, Marisa e Otoniel. Junto à equipe, o mestre conta ainda com a ajuda da filha Deise.

“Nossa arte em barro se baseia em três pontos: utilitários, decorativos e figurativos. Fornecemos peças para Maceió, Fortaleza, Natal, João Pessoa e temos muita coisa que ganhou o mundo”, diz Nena. Ele reforça que o grupo, nos últimos 13 anos vem ganhando maturidade, força e espaço, expondo em feiras de Pernambuco, São Paulo, Minas, Brasília e do Rio de Janeiro.

Cerâmica esmaltada mostra evolução (Foto: Ademar Filho)

“A Fenearte é nossa grande vitrine”, diz convicto. Tantos ganhos levam à vontade de espalhar a arte e fomentar novos talentos nas comunidades. “Vamos às escolas, com as nossas oficinas, e também oferecemos aqui. Na segunda semana de agosto teremos mais uma, aqui (no Centro), com o apoio do Funcultura”, avisa.

Peças têm traços cada vez mais apurados (Foto: Ademar Filho)

Dos 15 que hoje produzem no local, 12 aprenderam com ele, num projeto da Petrobrás. O início garantia um salário e o que viesse com as vendas das peças. Esses discípulos veem, a cada dia, o progresso correndo junto ao tempo, levando os seus nomes e as suas crias a residências, espaços culturais, hotéis, restaurantes, feiras, pelo mundo.

Produção do centro vem ganhando o mundo (Foto: Ademar Filho)

“Durante a Fenearte, cerca de 12 turistas norte-americanos vieram conhecer e comprar o nosso trabalho. Estou muito orgulhoso e agradecido. Já sofremos muito com atravessadores. Temos esse Centro, como é hoje, graças aos nossos parceiros. Sou recompensado pelo que faço. Vendo e é valorizado. Meus filhos nunca comeram nada que não viesse do barro. Tudo o que eles vestiram, viveram, comeram veio do barro. O barro para mim é começo, meio e fim”, diz o Mestre Nena.

Peças passam pelo figurativo, decorativo e pelos utilitários (Foto: Ademar Filho)

O amadurecimento é visível. Para onde se olha, nesse espaço de recriação do mundo e reinvenção de sonhos, se vê a releitura de homens, mulheres, divindades, personalidades. Em pinhas, cabeças, carrancas, sanfonas, bonecos, tótens, luminárias e objetos diversos. Tudo pensado por cada homem e mulher do grupo, batido, socado e moldado no barro, que esquenta, esfria, esquenta, queima e esfria novamente, para ficar eternizado.

O processo

O processo da arte em barro  é único, pois trata com a terra, de onde se extrai o barro; a água, usada na modelagem da peça; e o fogo, que queima a peça e dá a resistência final. Francisco Brennand é uma grande inspiração para os artesãos e sua arte com barro.

Produção em pleno processo criativo (Foto: Ademar Filho)

O barro é retirado de jazidas ou barreiros. O melhor barro é geralmente o mais profundo. Apesar de parecer tudo igual, cada barro tem uma característica, uma função e uma aplicabilidade. O barro retirado precisa passar por um processo de beneficiamento antes de ser moldado. São necessários testes e ensaios para determinar a melhor mistura de argilas para cada aplicação.

Quando o trabalho, a arte em barro e a vida são um só (Foto: Ademar Filho)

Moldado somente com as mãos, ou através do torno ou mesmo com uso de moldes e o barro líquido (barbotina), esta é a fase de expressão do artesão e da sua peça. Muitas vezes, a peça não é feita de uma vez só, exigindo várias etapas e várias peças menores sendo combinadas para formar a peça final.


O barro e o oleiro (Foto: Ademar Filho)

A secagem da peça, após moldada, demanda cuidados especiais, como secar à sombra para não deformar e as vezes um pequeno retoque para dar o acabamento necessário. Para algumas peças pode ser aplicado uma camada de esmalte cerâmico para garantir a impermeabilização e aumentar a resistência.

No forno o segredo da finalização 

(Foto: Ademar Filho)

A queima é onde tudo se consolida. O barro frágil se torna resistente e a mistura de minerais em pó sem graça ganha cor e brilho completamente diferente de quando entrou no forno. Com temperaturas entre 800 e 1200ºC. É também a hora da verdade para saber se o esmalte saiu na cor desejada. A abertura do forno é sempre um momento emocionante. Os fornos usados no Centro utilizam gás natural, minimizando o impacto ambiental causado pelo processo de queima.

MATERIA ORIGINAL DISPONIVEL EM:

A Arte Em Barro Contada Pelos Oleiros Pernambucanos


O QUE É ARTE MODERNA? Como identificar suas caracteristicas essenciais.

Muitas pessoas não sabem diferenciar obras artísticas e suas estéticas, muito por não saberem suas peculiaridades, pontos técnicos e o que a torna o seu estilo consolidado. Isso ocorre quando estamos frente às obras de arte parecidas, mas que se pré-define nos detalhes ali presentes. Seja pela técnica, ou pelo contexto histórico-social em que aquele determinado trabalho fora concebido.

O modernismo, por exemplo foi uma tendência artístico-cultural ocorrida na primeira metade do século XX. Esta estética se caracterizava pela ruptura com o tradicionalismo, a recusa aos moldes acadêmicos; a possibilidade de ter uma liberdade criativa e de expressão; uma valorização da experimentação; a busca pela aproximação da linguagem popular; a espontaneidade e irreverência; e tendo a quebra de formalismos como um forte ponto da proposta moderna.

Podemos definir a Arte Moderna como o conjunto de expressões artísticas que surgiu na Europa no final do século XIX e perdurou até meados do século XX. Ela abrange especialmente a arquitetura, a escultura, a literatura e a pintura. Este conjunto de linguagens modernistas tem como principal característica o rompimento com os padrões vigentes. Tal aspecto se dá principalmente por conta de seu momento histórico.

A arte moderna acontece em meio a um período de grandes conquistas tecnológicas (como o invento da fotografia e do cinema), desde as primeiras formas de fotografia que se popularizaram, como o daguerreótipo ainda no século XIX, indo além da Revolução Industrial, da Primeira e Segunda Guerra Mundial.

A arte também se transforma e passa a exercer cada vez mais um papel contestador, expressando de alguma forma as incertezas e dilemas da contemporaneidade.

Essa expressão artística transformou radicalmente o campo das artes ao quebrar com os formalismos, atingindo inclusive as estruturas gramaticais no campo literário. 

Podemos compreender que suas principais características consistem na:

·     Rejeição ao academicismo

·     Informalidade

·     Liberdade de expressão

·     Pontuação relativa

·     Aproximação da linguagem popular e coloquial

·     Figuras deformadas e cenas sem lógica

·     Abandono da representação das formas de maneira realista

·     Arbitrariedade no uso das cores

·     Urbanismo

·     Humor, irreverência

·     Estranhamento

Considera-se que a arte moderna teve seu declínio com o final da Segunda Guerra Mundial, dando lugar a outras correntes artísticas da arte contemporânea ou pós-moderna.

quinta-feira, 10 de setembro de 2026

ART DÉCO e sua presença marcante na escultura.


É sabido que o estilo Art Déco foi desenvolvido pela primeira vez por volta de 1908. Logo, o estilo se espalhou pela Europa Ocidental na década de 1920 e pelos Estados Unidos na década de 1930, torando-se uma tendencia artística muito importante para a história da arte do século XX .

Devido o Art Déco ganhar o posto de um estilo extremamente popular, e com isso se expandir por diferentes disciplinas artísticas, levará um tempo para essa estética de fato se estabilizar. É necessário também compreender que o ART Déco compreendeu fortemente as artes visuais e decorativas, a moda, a arquitetura, a filmografia e o design de produtos, embora só tenha sido reconhecido como estilo distinto na década de 60.

Mesmo sabendo da diversidade do estilo, irei destacar algumas obras do segmento incorporadas na linguagem escultural, uma vez que a escultura Art Déco combina linhas elegantes, formas geométricas acentuadas e a presença de temáticas modernas que celebram movimento, sofisticação e glamour, oriundo do século XX.

O estilo destaca em suas composições, figuras alongadas, poses dinâmicas, um polimento preciso nas superfícies das peças, além de ser produzidas com uma variedade de materiais luxuosos como marfim, pedra e bronze. Vale salientar que o Art Déco flertava positivamente com o otimismo tecnológico do início do século XX, isso, no entanto revela a forte influencia da modernidade, presente nas maquinas, na velocidade, na moda e na produção industrial, reforçando assim, a notoria influencia de vanguardistas que defendiam o Futurismo.

Os temas mais comuns dessas esculturas geralmente são:

Dançarinas (inspiradas no ballet e no music hall)


Figuras femininas idealizadas — longilíneas, elegantes, com roupas esvoaçantes.

Animais estilizados — panteras, gazelas, aves


Atletas e acrobatas — celebrando força e movimento


Motivos exóticos — influências egípcias, africanas e orientais, típicas da época.


Desse modo, a escultura da Art Déco se estabeleceu no campo das artes visuais como um tendencia que ainda hoje, permeia o cotidiano decorativo de muitos adeptos à obras de arte.


VICTOR BRECHERET: Uma reflexão acerca da escultura modernista no Brasil do século XX.

 

Victor Brecheret foi considerado um dos mais importantes escultures do Brasil, sendo responsável pela introdução do modernismo na cultura e escultura brasileira. Apesar de ser um dos principais artistas da vanguarda no país, Brecheret nunca abandonou sua formação artística clássica, ligada à arte greco-romana e renascentista.

Em 1913, Victor voltou à Itália para estudar escultura em Roma. A cidade, é fortemente ligada à Antiguidade clássica, ao Renascimento e ao Barroco, sendo um grandioso polo da escultura europeia.  Victor não pode entrar na escola de Belas Artes, pois não tinha formação na área, desse modo acabou dividindo atelier com outro artista.

Ao retornar ao Brasil, em 1919, Victor se isolou e tem um tempo de grande produção. Até que os modernistas o descobriram e se entusiasmaram com sua arte. Suas obras causaram impacto pela dramaticidade das figuras, tensas e violentamente deformadas em nome de um caráter épico; além de conterem algumas características primitivas. 


Umas das obras de destaque de Brecheret, conhecidas como Sepultamento, foi esculpida em granito na França, em 1923, a obra foi exposta e premiada em Paris. Posteriormente foi vendida à família Guedes Penteado e hoje está no Cemitério da Consolação (SP), ornando o túmulo de Olívia Guedes Penteado – admiradora declarada de Brecheret, mecenas de modernistas e cujo salão foi o primeiro a receber obras desses artistas. A obra consiste numa releitura da Pietá, que representa a virgem Maria com cristo morto, acompanhada por outras figuras femininas. A estética da obra é de linhas simplificadas e livre de realismo.

Atualmente, a obra “Depois do banho” encontra-se no Largo do Arouche, em São Paulo. A figura feminina retratada é muito próxima do real, apesar da ainda presente simplificação formal de Brecheret, dentro de um sentido arcaico.

Victor começou a se interessar por construir uma iconografia escultórica brasileira. Seu interesse pela arte arcaica grega cresceu e baseou-se nessa arte para fazer um modernismo clássico. Houve uma quebra da rigidez geométrica. A naturalização das formas, a preponderância dos nus femininos — agora permeados por vitalidade e alegria de viver.







 

Entre as principais características  da escultura feminina de Victor Brecheret, destacam-se:

Desenho sintético- ( Desenhos corporais com poucas linhas e com muita leveza)

A Elegância e sensualidade contida – (Curvas suaves, inspirados na Art Déco)

A Variedade de materiais – (Mármore, gesso, bronze e pedras)

O Simbolismo – ( Representação da mulher associando a mitos, deusas e fertilidade).



O MONUMENTO ÀS BANDEIRAS 

É uma obra em homenagem aos Bandeirantes, que exploraram os sertões durante os séculos XVII e XVIII. A obra começou a ser desenhado ainda em 1920, sendo concretizada 33 anos depois, às vésperas do IV Centenário da capital paulista de 1954. Sessenta e três anos após sua inauguração, o Monumento às Bandeiras está em ótimas condições, no parque do Ibirapuera /SP, apesar do desgaste natural comum de uma obra ao ar livre.

Dessa forma, podemos afirmar que Brecheret, foi um dos expoentes mais expressivos da escultura do inicio do século XX, com destaque na semana de arte moderna de 1922. Seguindo a influencia da Art Déco, e com sua formação clássica, é nítido a percepção de rompimento de um estilo mais próximo ao realismo, para um novo contexto visual moderno que permanece intacto até a contemporaneidade.

sexta-feira, 4 de setembro de 2026

ARTE COLONIAL BRASILEIRA: O que de fato constitui essa influencia na formação da cultura brasileira?

Muito se falou que o territorio brasileiro foi "descoberto" pelos portutgueses. Aprendemos isso nas aulas de historia do Brasil, porem, nos dias atuais, o nosso senso crítico nos fez repensar essa afirmativa, a partir do momento em que refletimos acerca da existencia dos povos originarios que desde então já habitara nosso territorio. Dentro dessa perspectiva, vamos tentar entender um pouco da influencia cultural que circunda a arte no contexto da colonização portuguesa. Para isso é precisso compreender que a Arte Colonial no Brasil compreende o período da chegada dos portugueses até a independência, em 1822. Nesse contexto, temos então: 

  Os primeiros anos de colonização – 1500 até 1630; 

  A Arte Holandesa no Brasil – 1630 a 1645 – promovida pelos holandeses; que se instalaram clandestinamente no Nordeste brasileiro. 

  Barroco Brasileiro – início do século 18, até início do século 19 – estilo tardio no Brasil e que possui características rococós. 

  Academicismo – a partir do ano 1816, com a instalação da Escola Real de Ciências, Artes e Ofícios, fundada por Dom João VI e da vinda da Missão Artística Francesa.

Arquitetura  

Nos trinta anos que se seguiram à chegada dos portugueses, eles se estabeleceram na costa. Primeiramente, foram construídas as feitorias, que eram construções muito simples, precárias, com cerca de pau-a-pique ao redor, porque os portugueses temiam ser atacados pelos índigenas. Preocupado, com medo que outros povos ocupassem terras brasileiras, o rei de Portugal enviou, em 1530, uma expedição comandada por Martim Afonso de Sousa para dar início à colonização. Martim Afonso fundou a Vila de São Vicente (1532) e instalou o primeiro engenho de açúcar, iniciando-se o plantio de cana-de-açúcar, que se tornaria a principal fonte de riqueza produzida no Brasil.  


Após a divisão em capitanias hereditárias, a partir de 1534, houve grande necessidade de se construir moradias para os colonizadores. Foram construídas as casas de taipas - construções feitas de varas, galhos e cipós entrelaçados e cobertos com barro. Para que o barro tivesse maior consistência e melhor resistência à chuva, ele era misturado com sangue de boi e óleo de peixe. Elas podem ser feitas com técnicas diferentes: - A taipa de pilão é um tipo de construção de origem árabe. Constitui-se de paredes feitas de barro amassado e calcado, por vezes misturado com cal para controlar a acidez da mistura. Sabe-se que algumas das primeiras cidades construídas foram feitas em taipa de pilão, sendo que, na Assíria, foram encontrados vestígios de fundações feitas em taipa de pilão, que datam de 5.000 a.C.

A taipa de mão, também chamada de pau-a-pique, taipa de sopapo, taipa de sebe, barro armado é uma técnica bastante simples em que as paredes são armadas com madeira ou bambu e preenchidas com barro e fibra. A Taipa de mão possui uma particularidade muito interessante, pois, ao contrário da Taipa de Pilão - onde as paredes são feitas em formas e o barro, socado com o pilão e depois montadas, esse tipo de construção exige que para se preencher a trama de madeira era preciso que duas pessoas, simultaneamente, atirassem o barro, uma de cada lado, da estrutura para preencher os vãos.

Algumas das principais construções de taipas: muralha ao redor de Salvador, construída por Tomé de Sousa; Igreja Matriz de Cananéia; Vila de São Vicente, destruída por um maremoto e reconstruída entre 1542 e 1545; Casa da Companhia de Jesus, que deu origem à cidade de São Paulo. 

Assegurada a posse da terra, foram nela estabelecidos os poderes civis e religiosos. Os jesuítas chegam ao Brasil em 1549, os beneditinos, em 1581, os franciscanos, em 1584. A partir daí, ocorrem manifestações artísticas dos colonizadores na Bahia, em Pernambuco, em São Vicente, na Paraíba, no Espírito Santo e no Rio de Janeiro. Os portugueses também dispunham de numerosos arquitetos, mestre-de-obras, pedreiros, marmoristas, carpinteiros, marceneiros e artesãos, vindos da Europa. Assim, pouco a pouco, vão surgindo as cidades e suas construções. 

Após o fracasso das capitanias hereditárias, chega ao Brasil Tomé de Souza, em 1548, e começam a surgir os primeiros aglomerados urbanos, que cresciam sem planificação. Em 1580, Salvador conta com um número de 15.000 habitantes e possui uma grande praça com prédios de administração pública, várias ruas e um bom número de moradias de pedra. A casa-grande era a residência da família do senhor de engenho. Nela moravam, além da família, alguns agregados. O conforto da casa-grande contrastava com a miséria e as péssimas condições de higiene das senzalas (habitações dos escravos). Os edifícios públicos e religiosos do século 16 tinham, geralmente, características do Maneirismo, mas restam poucos traços dessa arquitetura. 

Uma das igrejas mais antigas do Brasil, a Catedral de Olinda, foi inicialmente construída com taipa de mão, entre 1537 e 1540, sendo substituída por outra maior e de alvenaria. A igreja foi praticamente destruída, durante a Invasão Holandesa, sendo completamente restaurada em um processo lento, durante boa parte do século 18. Entre 1974 e 1976, a edificação foi restaurada, readquirindo, até onde foi possível, suas feições originais de transição entre a Renascença e o Barroco, conhecida como Estilo Manuelino.
Na primeira metade do século 17, a situação econômica do Brasil colonial já estava definida, assim como a arquitetura militar, pública e religiosa. Destaca-se, nesse período, a construção dos fortes para defender as cidades costeiras das incursões francesas. 

Pintura 
 Quando os portugueses atingiram o Brasil, no último ano do século 15, Portugal estava sob o reinado de Dom Manuel, o Venturoso (1469-1521) e atravessava um período de intensa atividade artística, motivado pelas Grandes Navegações, pela fundação de seu vasto império colonial ultramarino e pela imensa riqueza material. No que diz respeito à arte da pintura que, diga-se de passagem, nunca foi uma preferência nacional, várias oficinas começariam a surgir, em breve, em cidades, como Lisboa, Coimbra, Vizeu e Évora. Daí, mais tarde, sairiam os painéis e retábulos destinados a povoar os conventos e igrejas portuguesas, substituindo, no devido tempo, as importações de obras flamengas, que até então eram comuns.

Por essa mesma época, diversos pintores flamengos, atraídos pelas possibilidades de enriquecimento, estavam chegando a Portugal. Em breve, eles se tornariam os iniciadores e mestres de uma brilhante linhagem de pintores, como Jorge Afonso, Francisco Henriques, Frei Carlos, Vasco Fernandes, Cristóvão de Figueiredo, Gregório Lopes e Garcia Fernandes. Se não eram todos de origem flamenga (como parece ter sido Francisco Henriques e o foi, sem dúvida, Frei Carlos), eram fortemente influenciados pela pintura flamenga. Esta influência, iniciada no longínquo ano de 1428, quando o célebre Jan Van Eyck esteve no país, somente diminuiria nos anos finais do reinado de Dom João III, substituída pelo gosto italiano.

No Brasil, no primeiro século da colonização, não foram trazidos, evidentemente, pintores, mas, sim, administradores, muitos soldados, alguns mestres-de-obras e artífices, centenas de degredados e, após 1549, os primeiros jesuítas missionários. E seriam estes, justamente, os primeiros pintores europeus ativos no Brasil, suprindo, com maior ou menor habilidade, sua falta de aprendizado profissional. Trabalhavam para a edificação dos fieis, a salvação das almas e a maior glória de Deus e de sua Igreja. Obra de religiosos, era de se esperar que a pintura do século 16 – como, de modo geral, toda a pintura realizada no Brasil Colonial - viesse a ser exclusivamente religiosa, com mínima incidência de retratos e umas raras (e toscas) representações paisagísticas, servindo de fundo para cenas da vida de Cristo e dos santos. Entre poucos nomes a realçar, todos de obra ignorada, citem-se os jesuítas Manoel Álvares, que esteve alguns meses na Bahia, em 1560, a caminho da Índia e que, para o Padre Serafim Leite, terá sido "o primeiro pintor digno deste nome, que passou pelo Brasil"; Manoel Sanchez, chegado em 1574; Francisco Dias, notável arquiteto e provavelmente também pintor, no Brasil desde 1577. E Belchior Paulo ou Paielo, desembarcado em 1587, possível autor de um retrato de José de Anchieta e que trabalhou em Pernambuco, na Bahia, no Espírito Santo e ainda em outras regiões brasileiras. Também merecem destaque Hierônimo de Mendonça, que, em 1595, residia em Olinda, e até uma artista-pintora, Rita Joana de Souza, nascida também em Olinda e ali falecida aos 23 anos, em 1618. Outros pintores quinhentistas devem, com certeza, ter trabalhado no Brasil, porém ignoramos totalmente nome e produção.

Ao longo da primeira metade do século 17, mas ainda de alguma forma ligados ao século 16, deveriam ser citados, entre poucos outros, em Pernambuco, os flamengos João Batista (protestante convertido ao Catolicismo, em 1606) e Remacle Le Gott (vindo em 1628); na Bahia, Antônio Bastos, Aleixo Cabral, André Rodrigues e Manoel Pinheiro. E, no Maranhão, Frei Cristóvão de Lisboa, chegado em 1624, primeiro Custódio da Ordem Franciscana no Maranhão, autor de um precioso manuscrito, com desenhos de animais e plantas que antecedem, em mais de uma década, o que fariam, no gênero, os chamados pintores de Nassau. 

Escultura

O Mosteiro de São Bento, no centro da cidade do Rio de Janeiro, é um dos principais monumentos coloniais brasileiros. Fundado em 1590, possui a fachada no estilo maneirista e seu interior é coberto por talhas douradas, bem ao gosto dos estilos Barroco e Rococó. É muito comum termos vários estilos de Arte em uma mesma igreja devido às reformas e melhorias promovidas pelos artistas.

A escultura, nos primeiros anos de colonização brasileira, é praticamente inexistente. No final do século 16, vão aparecer os primeiros indícios, quando as vilas começam a se estruturar no litoral e vão surgir os primeiros edifícios públicos e religiosos. O primeiro escultor identificado no Brasil é o português João Gonçalo Fernandes, na década de 1560. João Gonçalo, falecido na Bahia, em 1581, era ceramista e pedreiro também. O artista foi contemporâneo, em Salvador, do governador-geral, Mem de Sá, e do clérigo jesuíta Manuel da Nóbrega. No entanto, devido às condições precárias da Colônia, as obras eram, em sua maioria, importadas da Europa. O primeiro nome de vulto, no século 17, é do entalhador português Frei Domingos da Conceição da Silva, que trabalhou no Mosteiro de São Bento, no Rio de Janeiro. A talha, nesse início da colonização, é a principal atividade escultórica no Brasil.


As obras d Frei português, Agostinho da Piedade, possuem características do Maneirismo, mas já se aproximam do Barroco. São atribuídas a ele 30 imagens de santos, todas em barro cozido, técnica chamada de terracota. A maior parte de suas obras está no Museu de Arte Sacra da Universidade Federal da Bahia. O frei é considerado o fundador da escultura nacional. 


Essas são apenas algumas das caracteristicas cruciais da arte colonial no Brasil. Muito se segue nessa trajetoria, uma vez que a arte brasileira é uma mistura grandiosa de influencias em todo seu processo formativo.




terça-feira, 1 de setembro de 2026

ARTE CRISTÃ PRIMITIVA: O que de fato se mostra nessa perspectiva?

 


A Arte Primitiva Cristã foi muito importante para o que hoje em dia temos como simbologia do processo e reformulação do cristianismo na sociedade atual.  Esta que se divide em dois principais períodos históricos; O antes e depois do reconhecimento do Cristianismo como religião oficial do Império Romano.

Até esse reconhecimento e conversão, foram mais de 350 anos de reação ao que se ligara ao cristianismo. O reconhecimento do deste segmento "cristão" como religião oficial do Império Romano só irá ser feito no contexto do Édito de Milão no ano 330 pelo imperador Constantino. Daí então, se encandeará uma nova visão acerca da arte oriunda do segmento cristão.



Trocando em miúdos, o que foi afinal a arte cristã primitiva? Podemos concluir que a Arte Cristã Primitiva nada mais é do que o conjunto de manifestações artísticas produzidas pelos primeiros cristãos entre os séculos I e IV d.C., durante o período em que o Cristianismo era proibido no Império Romano. Também reformamos a tese de que essa arte não nasceu com a intenção de ser estética ou decorativa, mas sim como uma linguagem visual simbólica de fé, esperança e resistência.

- A Fase Catacumbaria

A fase anterior ao reconhecimento chama-se Catacumbaria, porque as suas principais manifestações ocorreram nas catacumbas, que por sua vez eram cemitérios subterrâneos, constituíam-se como verdadeiros hipogeus, nos quais os primeiros cristãos sepultavam seus mortos e mártires. Esta fase, estende-se do século I até o início do IV, precisamente ao Édito de Milão.

A fase catacumbaria, corresponde, portanto, à época das perseguições movidas aos cristãos, com maior ou menor intolerância e crueldade, por imperadores romanos. A perseguição desenvolvia-se praticamente em todo o Império, em algumas partes com mais brandura, especialmente em certas regiões da Ásia Menor, nas quais houve mesmo tolerância com a nova religião, que se misturava com velhos cultos pagãos locais, vindos dos egípcios e caldeus. Por isso mesmo, ali são mais precoces as transformações da primitiva arte cristã.

Uma observação importante, é entender que as primeiras manifestações artísticas dessa estética foram feitas por pessoas simples, (cristãos unidos na fé) e não por grandes pintores da época. Isso faz com que , as primeiras obras de arte desse segmento, se mostrem com aspectos simples e grotescos.


- A Fase Cristã Primitiva (paleocristã)

A fase posterior ao reconhecimento, quando o Cristianismo deixou de ser perseguido e substituiu, oficialmente, entre os romanos, as crenças do paganismo, tem sido determinada Arte Latina por alguns historiadores. Deve ser chamada, porém, de modo mais adequado, Arte Cristã Primitiva propriamente dita.

Essa fase, Arte primitiva Cristã, desenvolve-se dos anos de 330 ao de 500, quando as artes do Cristianismo começam a dividir-se em dois grandes ramos - um oriental e outro ocidental. Sendo então conhecida como fase oficial da arte cristã. Assim, contribui-se para a evolução dos estilos, mais adiante com a arte bizantina, a gótica a barroca a as demais estéticas ligadas a fé cristã e aos atributos artísticos do segmento.

NEOCLASSICISMO: Um pouco sobre a estética que reviveu a releitura da arte clássica.


Quando em arte falamos sobre estéticas conservadoras, lembramos do renascimento artístico e cultural, que por sua vez foi um movimento artístico-cultural-cientifico-político e filosófico surgido na Itália do século XIV até o XVII, no qual teve como inspiração, os valores da antiguidade clássica, reformulando a vida medieval e dando início à Idade Moderna.

Com a chegada do Barroco, estilo que dominou a arquitetura, a pintura, a literatura e a música na Europa do século XVII, muitos dos trabalhos criados no renascimento foram deixados pra trás, "esquecidos" por grande parte da sociedade europeia ocidental, justamente pelo crescimento da igreja católica. Esse estilo que por sua vez, tinha características de uma arte rebuscada e exagerada, que Valorizava do detalhe e buscava um universo na perspectiva da obscuridade, sendo fortemente complexa na sua composição.

Após a ascensão do barroco, retoma-se o Neoclassicismo, em palavras mais diretas: o “novo classicismo”. Essa estética de fato representa um movimento artístico e cultural que envolveu a literatura, a pintura, a escultura e a arquitetura. Surge no século XVIII também na Europa, e assim como os demais, se espalha pelo mundo até meados do século XIX.

Mas o que de fato justifica o neoclassicismo, já que é uma proposta de estética artística pautada numa releitura do que já fora produzido na antiguidade clássica e também pelos renascentistas?

Ainda, no meio do século XVIII, uma nova corrente classicista, nítida e influente, centralizada em Roma, enfrentou as últimas manifestações do Barroco e do Rococó, visando sumariamente finalizar a fórmula estética barroca e finalizando os seus excessos, a sua mera decoração fútil, a irregularidade e a ligação direta do clero, preocupado apenas em criar suas ilusões sentimentais em quem aprecia a arte. Não podemos ignorar o crescente interesse pela antiguidade clássica de modo geral, com seus valores de racionalismo, modéstia, equilíbrio, harmonia, simplicidade formal, idealismo  e desapego do luxo.

Devido ao neoclassicismo estar ligado ao declínio da influência da religiosa,  a ascensão dos ideais do iluministas, que tinham base no racionalismo, combatiam as superstições e dogmas  religiosos, e enfatizavam o aperfeiçoamento pessoal e o progresso social dentro de uma forte moldura ética

Saindo da perspectiva político-idealista dos iluministas, notamos no campo das artes que A arte neoclássica busca inspiração no equilíbrio e na simplicidade, bases da criação na antiguidade, tendo como características marcantes; o caráter ilustrativo e literário, marcados pelo formalismo e pela linearidade, poses escultóricas, com anatomia correta e exatidão nos contornos, temas "dignos" e clareza na composição. A base sistemática dessa linha artística era feita através do segmento conhecido como academicismo, que estabelecia uma série de normas práticas e teóricas para a produção de uma arte de qualidade.

As características que se enquadram nesse segmento estético podem estar na valorização do passado histórico; na Influência da arte clássica (greco-romana); a influência dos ideais iluministas; a oposição aos estilos Barroco e posteriormente ao Rococó; a utilização de temas da mitologia clássica e sobre o cotidiano; também o racionalismo, academicismo e idealismo, pautados na composição estética com harmonia e busca pelo padrão clássico de beleza; Isso tudo é refletido com a simplicidade e o exímio equilíbrio das formas, que sempre seguia os critérios de proporção e clareza. Toda essa manipulação artística e criteriosa visava então, a clara imitação da natureza.