segunda-feira, 11 de junho de 2012

A DOENTIA ARTE DE DON KENN

em Arte por


Assustadora, doentia, tensa, inquietante... Esses são alguns adjetivos utilizados para tentar classificar a arte do dinamarquês Don Kenn, que usa blocos de anotação autocolantes, os famosos post-its, para apresentar através de ilustrações um mundo inusitado e apavorante.

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Os blocos de papel para anotação rápida com dispositivo autocolante, os famigerados post-its, são bastante usados nas escolas e nos escritórios para que aquela ideia ou anotação não se perca e seja facilmente visualizada onde quer que seja colada: tela de computador, porta de armário, mesa de trabalho, dentre outros.

Não é com esse objetivo que o ilustrador dinamarquês Don Kenn usa
esses papeizinhos adesivos.

Nascido em 1978, escritor, diretor de televisão e pai de gêmeos, Don Kenn diz quase não ter tempo para nada. Contudo, quando lhe sobra algum, desenha ilustrações de monstros nos referidos suprimentos de escritório e até já publicou um livro com os desenhos.

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E as obras impressionam pela riqueza de detalhes e por fazer aflorar diversas sensações distintas.

Na maioria das vezes, ao mirar as gravuras, tem-se a impressão de que algo de ruim vai acontecer ali nos próximos instantes, dada a sensação de iminência negativa que as imagens são capazes de transmitir.

No entanto, em outras ilustrações, os monstros parecem estar interagindo normalmente naquilo que seria o mundo deles, tal como os animais procedem em seus habitats naturais.

Ainda, numa relação com outros seres, que se imagina serem humanos, em umas imagens se impera a tensão, enquanto em outras esse contato se opera como se os diferentes tipos de indivíduos se aceitassem e até cooperassem uns com os outros.

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Dentre os sentimentos desabrochados a partir de análise rápida ou mais minuciosa das imagens, é evidente que o medo é um deles. Carregados de casas isoladas, crianças indefesas e lugares ermos, os desenhos quase sempre fazem com que a nossa imaginação trabalhe de maneira a sugerir que o desfecho daquelas imagens não será o melhor possível.

Também na seara da imaginação, as gravuras nos remetem à pesadelos infantis e outras tribulações experimentadas nas primeiras épocas da vida, quando ainda se é criança.

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Mesmo sendo considerada uma arte doentia, o trabalho de Don Kenn deve ser apreciado, pois ele faz dos post-its espécies de janelas nas quais se pode olhar para um mundo totalmente novo e assustador. Ou não tão novo, dado a familiaridade com esse tipo de ambiente em nossos sonhos mais ruins.

Só lembre-se de não mostrar nenhuma dessas gravuras a seus filhos, caso contrário eles jamais irão querer ter um amigo imaginário.

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© johnkenn.blogspot.com

felipevega
Artigo da autoria de Felipe Vega.
Às vezes, em busca da realidade das coisas, eu evito o mundo real.
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Leia mais: http://lounge.obviousmag.org/veja_bem/2012/06/a-arte-doentia-de-don-kenn.html#ixzz1xU67TBlc

ANOS 70: O FIM DA INOCÊNCIA

por Luís Pereira

A cocaína, um presidente dos Estados Unidos em desgraça, as festas no “Studio 54”, a “caça” aos assassinos em série… mas também as liberdades, as atitudes, a música, os avanços tecnológicos. Não ficar à margem nem deixar-se integrar no “sistema” também se tornou posição, com os “anos 70”. Um tempo à base de escolhas e de forças nos gestos, num tom febril.

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© Wikicommons, Maykel Herrera.

A ruptura

Talvez os “anos 70” tenham começado, na verdade, em 68, 69 ou até mesmo em 71. Os limites de tempo/espaço, em relação a acontecimentos históricos, não são rígidos. Os anos 60 terminaram com o “Maio de 68”, em Paris. Este poderá ter sido o marco histórico que, em si, foi uma ruptura e que acabou por expandir o espírito dessa mesma ruptura da qual foi símbolo. Será que esta década de 70 teve início, nesse caso, com uma greve estudantil, em universidades e escolas secundárias, que alastrou a outras camadas sociais, contra o governo gaulista? Fica a questão. A maioria dos insurrectos partilhavam ideias esquerdistas, comunistas e anarquistas, com o intuito de abanar os velhos costumes da sociedade e apelar aos princípios da educação, relacionada com o sexo e o prazer. Eis o início de algo.

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© Wikicommons.

Simultaneamente, a “Primavera de Praga”, na antiga Checoslováquia, e as suas reformas políticas acompanharam o início dos “anos 70” antes de a década chegar oficialmente e, em Agosto de 1969, houve o “Woodstock Music & Art Fair”, o festival dos 3 dias de paz e música, durante o auge da guerra fria, com uma forte presença da cultura hippie. Os moradores locais opuseram-se mas, ainda assim, “Woodstock” aconteceu, na localidade rural de Bethel, Nova Iorque.

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© Wikicommons, FaceMePLS.

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© Wikicommons, Omasz.

O festival foi um marco para esta contracultura. Entusiasmou toda uma geração com sonhos e esperança no futuro da sociedade humana, mas sem esquecer maldades como a Guerra do Vietname, terminada em 1975, sob o mandato de Richard Nixon. A Guerra e o escândalo “Watergate” viriam a sujar toda a sua pintura.

A continuação

A ruptura foi lenta, mas foi feita. Os “anos 70” continuaram-na. Aqui, os “anos 70” começaram quando se perdeu "a inocência e a crença nos ícones e bandeiras dos anos 60” - na opinião de Fernanda Mayer, colaboradora do “Folha Online”. Ainda assim, nem toda a ruptura significou corte - houve também continuação. O feminismo, os direitos das minorias ou a luta contra o racismo subiram de tom, ininterruptamente, vindos das décadas transactas, com fortes marcas a médio prazo. A chegada do Homem à Lua, em 69, seria o impacto que abriria a porta para a missão a Marte, o computador pessoal, o videojogo e a popularização da televisão a cores.

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© Wikicommons, Ward Brackett.

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© Wikicommons, Nightflyer.

Continuaram manifestações, mais subtis e menos ingénuas, coloridas, à medida que a experimentação da estética hippie se generalizava, mas não só. A moda hippie, das calças à boca-de-sino, roupa unissexo ou mini-saia (lançada nos “anos 60”), alternou com uma onda disco, e com uma uma outra metálica e futurista, com David Bowie e ainda com a contracorrente “punk”.

O hedonismo dos festivais ao ar livre, alternativos, com flores, droga e manifestações de amor à mistura, começava a concorrer com o prazer em locais fechados, espaços de festa e de cocaína durante toda a noite, de sexo descomprometido, como só as discotecas podiam oferecer. O “Studio 54”, em Manhattan, não durou uma década mas tornou a fantasia em realidade, para alguns. O lado negro da noite, com os assassinos em série, florescia para caçar vítimas e vidas.

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© Wikicommons, William Armstrong.

O Mito

O direito à liberdade e às alegrias simples da vida, ao som dos “Beatles” ou “Bee Gees”. Os desejos de uma ordem social hipócrita, pequeno-burguesa e injusta, substituída por uma nova, igualitária e mais verdadeira. A geração d' ”os 70’s”, que criou rupturas e continuou lutas, deixou-nos o mito do “faça você mesmo”, “seja você mesmo”, e do "constrói o mundo à tua imagem", fora do “sistema” e da sua margem. Tu és tu, simplesmente.

Talvez os “anos 70” não tenham terminado em 1979, nem tenham perdido a força do mito - levando, sim, a força da utopia.

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© Wikicommons, Andreas Thum.

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Sobre o autor: luís pereira. Segundo José Saramago, "sempre chegamos aonde nos esperam." Saiba como fazer parte da obvious.


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TRAGÉDIA E MARAVILHA NO PAQUISTÃO

publicado em fotografia por


Por vezes é bom regressar ao passado para recordar/ conhecer algo extraordinário, algo que nos marcou ou que nos escapou. Há uma dimensão não imediata em todas as coisas, e é possível encontrá-la até nos maiores desastres naturais, como é o caso. O britânico Russel Watkins relata e ilustra a tragédia e a maravilha encerradas pelas cheias de 2010 no Paquistão.

2010, aranhas, catastrofe, cheias, ecossistema, monção, paquistao, russel, watkins
© UK Department for International Development/Russell Watkins.

Da mesma forma que não só os desastres que afectam os grandes devem ser tomados como relevantes, não só os milagres humanos (religiões desde já à parte!) são dignos de nota, muito pelo contrário. A dualidade natural não é novidade. Beleza e destruição convivem verdadeiramente em porções iguais, pelo que nada há de mais subjectivo que a sua percepção. Para muitos, o que se segue passou ao lado; para outros, é assunto tão pesado que não permite ver mais. Para tantos outros, tudo isto fará sentido.

2010 revelou-se um ano negro na história do Paquistão. A inundação provocada pela maior monção desde 1994, e a segunda maior nos 50 anos que a precederam, fez submergir uma área de quase 800 mil quilómetros quadrados, cerca de um quinto da área total do país. Segundo o governo paquistanês, 20 milhões de pessoas - um décimo da população - distribuídas pela bacia do rio Indo, pelas províncias de Khyber Pakhtunkhwa, Sind, Punjab e Baluchistão, foram directamente afectadas.

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© UK Department for International Development/Russell Watkins.

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© UK Department for International Development/Russell Watkins.

Com as cheias, que reclamaram quase duas mil vidas, veio a destruição das infraestruturas, das colheitas, e também doenças como a cólera ou a malária, resultado das más condições sanitárias e da falta de água potável. Muitos viriam ainda a perecer, indirectamente, naquele que foi considerado um dos maiores desastres naturais do século XXI, quer pelo seu alcance geográfico - do Planalto Tibetano ao Mar Arábico - quer pela percentagem de população afectada ou pelo impacto económico causado. Combinando o tsunami do Oceano Índico em 2004, o sismo de 2005 que também assolou o Paquistão e o sismo de 2010 no Haiti, não foram atingidas tantas pessoas ou uma área maior, ainda que muitos mais tenham morrido.

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© UK Department for International Development/Russell Watkins.

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© UK Department for International Development/Russell Watkins.

A ajuda internacional foi prestada a uma escala correspondente à da calamidade; no entanto, o sofrimento das populações de algumas regiões continua até hoje, e a já grande divisão entre classes aumentou muito.

O tema integrou os jornais de todo o mundo, é certo, mas esta informação não causou o impacto de eventos como o 11 de Setembro, e talvez por isso não se imprimiu na memória dos espectadores. A selecção da informação é isso mesmo: uma selecção, tão subjectiva, humana e possível como a escolha das imagens que ilustram estas palavras, imagens estas que pela sua singularidade isolaram do caos da destruição a beleza digna de registo mental, pois a destruição, essa, é banal.

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© UK Department for International Development/Russell Watkins.

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© UK Department for International Development/Russell Watkins.

Muitos meses passados sobre a cheia inicial de Julho de 2010, e já no período de calmaria depois da tempestade no qual tudo parece parar, reunindo forças para começar a recompor-se, o fotógrafo Russel Watkins, ao serviço do Departamento Britânico para o Desenvolvimento Internacional, encontrou na ainda bastante alagada província de Sind algo surpreendente, um modelo de esperança, à escala. Num fenómeno sem precedentes para os próprios habitantes locais, lentamente regressando ao pouco que a água deixou, surgiu no seio da destruição, em cada árvore, um microescossistema.

Para fugir à rápida subida das águas, que nalgumas zonas ultrapassou os seis metros, milhões de aranhas encontraram nas poucas árvores disponíveis o único porto seguro. A sobrepopulação fez com que, em pouco tempo, estas se assemelhassem a grandes casulos de seda, destacando-se no horizonte da agora inóspita região agrícola. Muito mais do que um quadro de rara beleza, uma estranha beleza nascida do alto contraste com o cenário circundante, as fotografias de Watkins revelam a força com que aqueles pequenos animais se agarraram à vida, e às árvores, ao mesmo tempo que escondem uma ajuda não premeditada às populações da província do sul.

2010, aranhas, catastrofe, cheias, ecossistema, monção, paquistao, russel, watkins
© UK Department for International Development/Russell Watkins.

2010, aranhas, catastrofe, cheias, ecossistema, monção, paquistao, russel, watkins
© UK Department for International Development/Russell Watkins.

A massiva quantidade de água estagnada, que tanto tempo levou a recuar, tornou-se um paraíso para uma outra espécie animal, o mosquito, criando as condições ideais à reprodução deste portador do parasita da malária. Os mosquitos rapidamente se tornaram um dos maiores problemas nas áreas afectadas pelas cheias mas, na província de Sind, as árvores cobertas de teias de aranhas predadoras desempenharam um papel inesperado e fundamental, reduzindo exponencialmente o número de mosquitos e tornando, consequentemente, pontuais os casos de malária.

A beleza destas imagens fê-las correr o mundo numa altura em que da tragédia que silenciosamente contam nem um eco, talvez, se encontrava. No cenário da destruição experienciada pelo Paquistão, um pequeno milagre destacou-se, relembrando a capacidade de adaptação e de regeneração da natureza, sem par, nem entre a raça humana. Mas Russel Watkins frisa que ainda que a natureza tenha inadvertidamente favorecido o Homem, uma outra realidade se lhe seguiria: muitas das já poucas árvores morreriam cobertas de teias, perdendo as populações o abrigo natural das altíssimas temperaturas de Verão... Sempre a dimensão mutável, circular e dual do Universo.

2010, aranhas, catastrofe, cheias, ecossistema, monção, paquistao, russel, watkins
© UK Department for International Development/Russell Watkins.

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© UK Department for International Development/Russell Watkins.

romero
Sobre o autor: alexandre romero, um cidadão do mundo. Classicista, escritor, fotógrafo, pintor experimental, o homem dos mil ofícios. Saiba como fazer parte da obvious.


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terça-feira, 5 de junho de 2012

A máscara do Bode numa perspectiva construtiva do drama.

Por Fábio Fernandes

(Arquivo Bodearte)

Análise sobre a obra “A mascara do bode” realizada por Makarios Maia durante o Bodearte 2012. Precisamente numa sexta feira 25-05-12. Esta crônica dissertativa foi elaborada como extrato acadêmico da disciplina Apreciação Crítica do Espetáculo coordenada pela Prof. Dra Naira Ciotti, da Universidade Federal do Rio Grande do Norte.

Ao descrever o cenário da ação cênica performática, busco ambientar o leitor do artigo numa perspectiva imagética que resulte numa leitura visual que percorra um caminho alem da mera imaginação do leitor.

Encontra-se a disposição do performer para a realização da ação cênica, uma mesa; sobre esta se dispõe uma folha de alumínio “cortante”, duas caixas de ferramentas (furadeira, arrebitadeira, martelo, lixa e afins) e por fim uma câmera destinada ao registro da ação. Todos esses fatores (objetos+matéria prima) contribuem para a transformação da matéria à natureza do metal cortante ainda de forma bruta numa perspectiva de percorrer um caminho que visa simbolicamente à construção do ser dramático.

Durante o trabalho meticuloso do artista, este se preocupa em contar o processo dramático à câmera (o que gera certa confissão direta e atribui “vida” a este objeto, a câmera em seu pedestal configura-se na imagem de um psicanalista, seja pela sua frieza em ouvir somente, ou pela passividade de calar e refletir o processo; a necessidade de se afirmar os detalhes da ação eximia e lenta da construção do objeto metafísico constituirá, portanto o “objeto” dramático), em minha cabeça de expectador desde a constituição até seu resultado final.

Desfia-se a matéria. As ferramentas são cuidadosamente apresentadas à folha de metal, esta será trabalhada numa conexão do ser que constrói com aquele que se deixa construir (mexer, alterar, esboçar, desfigurar), o laço igual ao molde do homem no barro, semelhante ao mito de deus e sua criatura. O performer observa a lamina, estabelece a relação e de maneira esporádica começa então o processo de transformação da matéria. As ferramentas mostram ao metal ainda bruto seu poder na construção do drama, uma vez que a própria ação dessas ferramentas sobre o metal já se constitui um fenômeno dramático, ou seja; uma espécie de “jogo de poder” (hierarquia), o metal por sua vez dialoga com o espectador, que dialoga com a cena que junto desta gera a essência da ação, ou seja, desencadeia uma rede de ações.

O corte da tesoura revela o poder de uma ferramenta pequena sobre uma matéria maior porem frágil de se moldar, o metal por sua vez permite ser cortado, desfigurado, mas também exprime um perigo para quem cria a obra e o manuseia, perigo este denunciado quando o metal revela laminas letais ao processo e extremamente cortante. Esta, portanto é uma brecha que o performer encontra para falar diretamente à câmera (que registra a cena) que o drama corta a alma, transita no eixo concreto e abstrato do ser vivente.

Em meio ao processo, o metal que era um produto bruto e abstrato, perpassa do eixo da matéria por excelência a apresentar o significado na forma de um bode, o animal que prediz o drama, cria-se, portanto, a relação da matéria com o próprio ser que a mascara do bode sugere.

A leitura que esta performance possibilita, pode ser a de gerar uma reflexão sobre o drama contido no percurso da vida, nos medos, nas intrigas, nos fatores físicos, psíquicos, geográficos, amorosos, odiosos, no tédio, nas (dês) vantagens e (dês) graças nos quais determinados fatores sensoriais nos constituem enquanto corpos existentes na “estratosfera”.

Desta forma, a construção do dramático está em nós, quando estamos como o metal bruto, em meio à vida (cena) para sermos moldados, o performer são os fatores (meio) que seguem a lógica de nossas ações, as ferramentas são simbolizadas como a mão de obra na qual se torna possível à execução do processo (o que) a câmera que registra supõe a testemunha da vida (memória) na qual arquiva as ações executadas e por fim o bode (produto final) sugere a vida, muitas vezes transviada, mas que construída, seja em meio as transfigurações cotidianas ou a excelência na concretude da vida enquanto existência meramente conceitual. Ou seja : nas possíveis divagações artísticas.

segunda-feira, 4 de junho de 2012

O mito de Cronos deus do tempo

Existem 3 momentos de nossa evolução – segundo a mitologia grega. Somos primeiramente filhos de Urano e Geia, que geraram filhos primitivos com fortes instintos selvagens. Já teríamos sido gigantes de um olho só, sátiros, centauros, faunos, enfim seres animalescos, sem consciência. O mundo em que vivíamos era inóspito, feio, sem cores, sem flores.

Depois, Cronos, um destes filhos, revoltou-se por ver seu pai Urano fecundar incessantemente sua mãe fazendo nascer aqueles filhos horríveis, violentos. Castrou-o então cortando com uma foice os seus testículos e o destronou.

Abre-se então o segundo período evolutivo, este que agora estamos vivendo, em que somos filhos de Cronos, o deus do tempo. Do seu nome nos vem à palavra cronologia, marcação do tempo. Cronos que substituiu o pai organizou o mundo impondo nele o tempo que dá fim às coisas. O que isto passou a significar para nós? Que tudo, todas as coisas, teriam um momento para começar e outro para terminar. As fases más terminariam e também as boas terminariam. Teríamos então uma lei de ciclos, como etapas em que se divide o tempo. Necessitaremos então observar quando um ciclo já se fechou para não ficarmos presos a ciclos passados Poderá nos acontecer que um ciclo cármico como de um relacionamento afetivo, profissional etc já tenha terminado e nós, erradamente, ainda estarmos presos a ele. Estaríamos então remando contra as ondas do tempo instituído por Cronos. Observamos muito isso em relação aos ciclos familiares. Para muitos pais há o momento em que os filhos enchem a casa com risos infantis, mais tarde com suas festas de adolescentes. Eles se sentem úteis, imprescindíveis. Depois entram em outro ciclo. Os filhos tomando seus próprios rumos. Muitos pais não conseguem se adaptar a esta nova etapa que lhe é apresentada. Sofrem, não admitindo que o tempo tenha passado e introduzido outro ciclo diferente.

Muitas vezes deixam assim de perceber muita beleza e felicidade que o novo ciclo lhes poderia trazer.

O mundo, neste segundo período em que estamos fazendo nossa evolução, é lindo, cheio de flores e cores. O mito explica que o último sêmen do antigo deus Urano que foi castrado por Cronos , caiu no mar e dele nasceu Venus a deusa da beleza. Então Venus se revolta ,o mar se agita, causa maremotos quando o homem desrespeita a natureza com bombas guerras, tornando o solo árido e devastado.

A figura de Cronos é esta: O pai que engole seus filhos. O mito profetiza, porém para nós um terceiro período em nossa escalada para evoluir, quando Cronos será também destronado por um de seus filhos de nome Zeus. Zeus representa a espiritualidade, a nossa luz interna, a força divina dentro de nós, que um dia viveremos plenamente.

Como Zeus esse filho de Cronos conseguiu salvar-se de não ser engolido pelo pai? Diz o mito que foi pela força da compaixão de Réa, esposa de Cronos. Réa vê com compaixão os corpos de seus filhos irem se desgastando por doenças, os vê morrerem e as coisas que começaram ficarem inacabadas. Então, quando nasceu Zeus, ela enrolou uma pedra num chalé bem grosso e entregou a Zeus simulando que fosse um bebê. Ele, iludido, pensando que fosse um de seus filhos, engoliu rapidamente aquela pedra. Enquanto isto Réa escondeu Zeus numa caverna. Para um esotérico a caverna simboliza o nosso coração onde se esconde Zeus, a luz da nossa espiritualidade. Só ficaremos estão livres do desgaste corporal e do ciclo do tempo que causa a morte, quando atingirmos esta luz espiritual O mito ainda nos diz que o caminho de escapar ao ciclo do tempo e a Cronos que engole seus filhos,será apenas através da compaixão.


Disponível em

http://odespertardaespiritualidade.blogspot.com.br/2012/01/o-mito-de-cronos-deus-do-tempo.html

sábado, 2 de junho de 2012

Qorpo Santo: um dramaturgo que refletia um teatro crítico brasileiro, por excelência.

Qorpo Santo

Qorpo Santo

Por Fábio Fernandes

O que se conhece sobre a dramaturgia de José Joaquim Leão que tem por nome artístico: Qorpo Santo, é a configuração na imagem de um escritor que beirava a loucura, o subjetivismo e sinais de insanidade. Qorpo Santo era natural de vila do Triunfo, interior do Rio Grande do Sul, vivia em meio ao contexto da revolução farroupilha, após a morte de seu pai, parte para Porto Alegre para estudar gramática, isto contribui expressivamente nas suas ações voltadas a arte dramática.

Ao fundar um grupo dramático em 1851, Qorpo Santo posteriormente inicia seus escritos para jornais provinciais. Ao deixar o magistério ao qual trabalhara desde que chegou em Porto Alegre passa a lecionar diversos cargos na direção do colégio São João em 1856, ao mudar-se para a cidade de Alegrete. Qorpo Santo funda um colégio no qual tem seu nome na fachada da estabelecimento educacional, assim o escritor vem com o tempo adquirindo respeitabilidade como figura pública, escrevendo para jornais locais e ocupando ainda cargos públicos de delegado de polícia e vereador.

Por volta de 1864, o dramaturgo começa a sofrer de alucinações, o que o leva a ser internado e examinado por médicos no Rio Grande do Sul e no Rio de Janeiro. É em meio a esse período conturbado a consolidação da maior parte de seus trabalhos. As peças que compõem o teatro de Qorpo-Santo têm uma longa história. Escritas na estranha grafia proposta pelo autor, todas decorrentes de um período de intensa criatividade, este período latente é de 31 de janeiro e 16 de maio de 1866.

Mas o que faz d Qorpo Santo um grande nome na história do teatro brasileiro, é a força de suas obra, não apenas na construção de textos tearais por excelência, nos quais podem se destacar: Ensiqlopèdia ou seis meses de uma enfermidade(obra em nove volumes, dos quais, até o momento, são conhecidos seis, que reúnem poemas, confissões, receitas culinárias, máximas e suas dezessete peças teatrais. A grafia ensiqlopédia surge de uma reforma ortográfica proposta pelo autor e defendida em artigo no jornal A Justiça em 23 de outubro de 1868. ), Certa identidade em busca de outra, Eu sou a vida eu não sou a morte, Um credor da Fazenda Nacional, As relações naturais, Hoje sou um; e amanhã sou outro, Um assovio, Um parto,Hóspede atrevido ou O brilhante escondido, A impossibilidade da santificação ou A santificação transformada, Dois irmãos, A separação de dois esposos, La, Lanterna de fogo, Marinheiro escritor, Marido extremoso,Elias e sua loucura bíblica; com destaque para a comédia Mateus e Mateusa.

No universo delirante destes textos teatrais, Qorpo-Santo mostrou homens e mulheres presas de contradições terríveis. Elaborou tramas que envolviam adultério, homossexualidade, violência, inconformismo. E isso num momento em que o grande sucesso do teatro em todo o mundo era A dama das camélias, de Alexandre Dumas Filho, com sua dramaturgia bem- comportada e a esmagadora vitória da moral burguesa ao final.ou seja, percebe-se que Qorpo Santo tinha um teatro que ia de encontro ao ideal burguês-elitista da época, ou seja um teatro político e de cunho popular.

Na provinciana Porto Alegre, Qorpo-Santo inventava um teatro feito de irreverência, arbitrariedade, absoluto desprezo pelas convenções. Fatores destacados, por exemplo, em Hoje sou um, amanhã outro, As relações naturais e Um credor da Fazenda Nacional. Muitas de suas peças eram animadas por furiosa oratória que fustigava as convenções e investia contra o grupo social que Dumas consagrava e a cujos preceitos se curvava.

Em suas peças o autor citava um pouco do seu eu, eis um trecho de Hoje sou um, amanhã Outro:

“ MINISTRO - É filho de um professor de primeiras letras; seguiu por algum tempo o comércio; estudou depois, e seguiu por alguns anos a profissão de seu Pai, roubado-lhe pela morte, quando contava apenas de 9 a 10 anos de idade. Durante o tempo do seu magistério, empregou-se sempre no estudo da História Universal; da Geografia; da Filosofia, da Retórica - e de todas as outras ciências e artes que o podiam ilustrar. Estudou também um pouco de Francês, e do Inglês; não tendo podido estudar também - Latim, conquanto a isso desse começo, por causa de uma enfermidade que em seus princípios o assaltou. Lia constantemente as melhores produções dos Poetas mais célebres de todos os tempos; dos Oradores mais profundos; dos Filósofos mais sábios e dos Retóricos mais brilhantes ou distintos pela escolha de suas belezas, de suas figuras oratórias! Foi esta a sua vida até a idade de trinta anos.”

O professor Eudinyr Fraga (grande pesquisador da obra de QS) defende a tese de que, ao contrário do que se afirmou durante décadas, que o teatro de Campos Leão não tem a ver com o teatro do absurdo de Eugène Ionesco e Samuel Beckett,mas sim com o surrealismo de Breton, Duchamp, René Magritte entre outros. Um dos argumentos é a presença das divagações dos chamados ''fluxos de consciência'', método que aparece no surrealismo do início do século 20 como ''automatismo psíquico puro''. A enxurrada de palavras aparece em diferentes textos, entre os quais As Relações Naturais. Mas também há elementos do absurdo.

O professor Ednyr salienta que “Se o autor parece ansiar por um mundo em que prevaleçam a ordem e a obediência aos preceitos religiosos e legais, logo se insinua a malícia e o deboche, colocando em ridículo tais objetivos e mostrando a precariedade de nossos juízos".

Levaram quase um século para deixar o papel e tomar forma no palco. Consideradas por seus contemporâneos obras de um insano, caíram no esquecimento, do mesmo modo que toda a produção de Qorpo-Santo, até serem resgatadas desse buraco negro em meados do século 20, devido ao esforço de intelectuais e artistas gaúchos.



Referencias

http://pt.wikipedia.org/wiki/Qorpo_Santo

http://www.itaucultural.org.br/aplicExternas/enciclopedia_teatro/index.cfm?fuseaction=personalidades_biografia&cd_verbete=8960

< http://www.iluminuras.com.br/v1/verdetalheslivros.asp?cod=341



Salvador Dali (1904-1989)

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Fonte: