A análise da pintura icônica revela um conflito que se desdobra através dos gestos contrastantes das mãos do protagonista. No lado direito, a mão do político francês Jean-Paul Marat segura a pena que utilizava para escrever momentos antes de ser assassinado com uma faca de cabo de pérola, que repousa a poucos centímetros dele. A posição dessa mão, pendendo inerte, lembra a imagem das mãos de Cristo na escultura “Pietà” de Michelangelo e na pintura “O Sepultamento de Cristo” de Caravaggio.
Por outro lado, a mão esquerda de Marat está rigidamente posicionada, segurando uma carta manchada de sangue, remetendo ao foco oposto de sua atenção no momento fatal. Como destaca o portal BBC, esse contraste entre a vitalidade que persiste em uma das mãos e a morte que consome a outra provoca no observador uma reflexão sobre os limites entre os mundos dos vivos e dos mortos.
A complexidade dessa dualidade é acentuada pela escolha de David de incluir não uma, mas duas penas no cenário. A pena que Marat segura, ainda molhada com tinta, aponta para o caixote que servia como sua mesa, onde se encontra uma segunda pena cuja ponta negra parece indicar diretamente a ferida fatal. Essa representação suscita a seguinte questão: teria sido a faca que tirou a vida de Marat ou as palavras? Na obra de David, ambos os instrumentos se complementam e se desafiam mutuamente.
Quando examinamos os escritos presentes na pintura, encontramos duas cartas dispostas em destaque. A primeira, firmemente segurada por Marat com a mão esquerda, é uma missiva escrita por Charlotte Corday, sua assassina. Nesta correspondência, Corday manipula sua vulnerabilidade ao afirmar: “Basta que eu seja muito infeliz de ter direito à sua bondade.” O texto é claro: a benevolência de Marat acabou por se tornar sua ruína.
Abaixo da carta de Corday, há outra missiva, esta escrita por Marat. Este documento estava em andamento no instante do ataque e está sustentado por um assignat — um tipo de moeda revolucionária — considerado pelos estudiosos como uma das primeiras representações da moeda papel na arte ocidental. Neste bilhete, Marat expressa sua generosidade ao prometer cinco libras para uma mãe em dificuldades que havia perdido o marido defendendo a pátria. Mesmo em sua morte trágica, Marat é retratado como alguém generoso.
As cartas não apenas traçam as linhas da enganação e da bondade, mas evocam também fantasmas representativos. De um lado está Corday, a assassina ardilosa que entrou no lar de Marat com um punhal oculto sob seu xale; do outro, está a figura invisível da viúva aflita pela qual Marat estava disposto a lutar. Este confronto entre forças femininas — uma simbolizando o bem e outra o mal — remete a tradições artísticas históricas onde artistas exploravam as tensões entre virtude e vício. A abordagem de David atualiza esta narrativa clássica para o contexto revolucionário da época, enfatizando que o destino de toda uma nação estava em jogo.
As pinturas geralmente contam com uma assinatura. A Morte de Marat, no entanto, tem duas. Uma, rabiscada no centro da tela, pertence a Corday e foi falsificada por David na recriação da carta que ela escreveu para Marat. A segunda, a do autor, está perto da parte inferior da pintura. Um detalhe interessante é que, ao gravar seu nome nos próprios móveis da obra, David se insere na cena do crime. Pode parecer um gesto macabro, mas, ao fazer isso, o autor não está confessando o assassinato de Marat, mas declarando lealdade à sua agenda política. Dessa forma, ele afirma: “agora somos todos Marat”.
Ao observar os detalhes sob sua assinatura — onde David inscreve “L’an deux”, indicando o segundo ano do calendário revolucionário — estabelece-se uma tensão temporal entre o calendario cristão e o revolucionário. A data nítida e legível está entre os dígitos separados e parcialmente apagados do ano “1793”. Isso indica uma abolição total do tempo cristão em favor de medições revolucionárias.
No fim, o que o artista faz é projetar um retrato duplo da cena trágica. Assim, ele transforma o assassinato em mito enquanto o corpo físico do homem morto é transformado em em uma figura mística.
Texto publicado originalmente em:
https://aventurasnahistoria.com.br/noticias/reportagem/a-morte-de-marat-as-pistas-complexas-escondidas-na-obra-prima-de-jacques-louis-david.phtml
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